A fala como terapia da vida (“tenho que”)

Postado por em 27 ago, 2013 - Textos

Nossa linguagem pode ser um grande veículo no desenvolvimento de uma visão ampla e integrativa da vida e na facilitação do caminho de autoconhecimento. Sem perceber, muitas vezes usamos verbos, termos e expressões que dificultam nossa relação conosco e, consequentemente, em nossos relacionamentos. O texto de hoje abordará o uso da expressão “tenho que”.

Na grande maioria das vezes que usamos o “tenho que” para falar dos nossos atos, é como se sofrêssemos a influencia de uma força maior. Contudo, trata-se de uma escolha, um querer. Até aquelas ações que nos mantém vivos, como comer ou beber água, por exemplo, são escolhas. Sim, nosso corpo necessita de comida e água pra se manter saudável e vivo, mas somos nós que escolhemos comer e/ou beber água. A vida nos apresenta diversas situações, algumas mais fáceis, outras mais difíceis, mas somos nós os responsáveis por escolher o que fazer em cada uma delas. No entanto, é habitual o uso de justificativas, como se fôssemos vitimas de algo que está fora de nós. Ao usarmos o “tenho que”, independentemente do tempo verbal (“tive que” e/ou “vou ter que” também estão incluídos), geralmente estamos repassando a  outra(s) pessoa(s) ou situação(ões) a responsabilidade pelas nossas escolhas, que são sempre legítimas e, em sua essência, estão além de qualquer julgamento de valor. Em vários momentos fazemos isso inconscientemente, no modo automático. Esse tipo de intenção cria uma grande confusão paradoxal, pois nos desempodera de nós mesmos e passamos a ser coadjuvantes de nossas próprias vidas, onde o papel principal é sempre nosso.

Estamos acostumados a ser protagonistas quando o que aconteceu é tido como bom. Quando é algo mais difícil e desafiador ou quando o resultado não foi bem aquele que o(s) outro(os) ou a(s) situação(ões) esperavam nós, nossa fala geralmente se enche de “tenho/tive/vou ter que”, ou de outra expressão de uso similar, que é o “eu preciso/precisei/vou precisar.” O papel principal vai pro mundo e nos tornamos apenas um mero figurante pelo nosso discurso.

Somos protagonistas de nossas vidas, em todos os atos e a todo momento. Com pequenas mudanças, que trazem grande reflexão, podemos passar a assumir isso na fala. Ao invés do “tenho que”, podemos começar a usar o “eu escolho” ou “eu quero”. Seguem alguns exemplos dessa mudança:

a. Eu tenho que/preciso estudar/trabalhar > Eu escolho estudar/trabalhar

b. Eu não fui a sua festa porque eu tive que/precisei ver minha mãe > Eu não fui a sua festa porque eu quis ver minha mãe.

c. Eu não vou ao encontro porque eu tenho que/preciso descansar > Eu não vou ao encontro porque eu quero descansar.

Essa consciência das escolhas e de como nos comunicamos é uma bela ferramenta para que, a cada dia, conheçamos um pouco mais de nós. Para muitos eventos, essa mudança há de ser desafiadora, principalmente porque ela está atrelada ao compromisso de falar a verdade. Isso pode ser bem profundo e trazer muitas mudanças, o que é muito bom, afinal, é extremamente libertador ser verdadeiro, principalmente aparece de mãos dadas com a nossa verdade.

Que possamos ser conscientes de nossas escolhas e verdadeiros (conosco e ao falar com o mundo).