Um outro olhar sobre a barbárie

Postado por em 30 mai, 2016 - Textos

Há alguns dias recebi de uma amada amiga uma mensagem com uma pergunta sobre algo que aconteceu, foi noticiado e tocou muita gente. Acho o tema amplo e profundo. Por isso, achei por bem trazê-lo, juntamente com a resposta que eu lhe mandei, neste espaço:

“Dizem que tudo é escolha, mas em que momento se dá essas escolhas quando acontece algo mais brutal? Algo relacionado à violência e estupro, por exemplo? Numa primeira visão, pensamos: “essa vítima não pode ter escolhido passar por isso. Aí há uma mobilização por essas situações e todos sentimos uma espécie de raiva dos agressores. Numa visão espiritual, como isso se explica?”

A resposta:

Para responder a forma com que vejo essa questão que você trouxe, vou voltar ao momento em que o corpo que estamos habitando foi concebido.

A partir da fecundação, que é quando o espermatozoide se funde com o óvulo, é originado o zigoto, a primeira célula do novo ser. Dá-se então o início daquilo que normalmente é chamado por “uma vida”. Essa primeira célula se multiplica em diversas outras células, de forma espontânea, natural e simultaneamente a todos os movimentos que acontecem no cosmos. É uma parte do próprio cosmos em movimento, pois sua matéria fundamental não se difere em nada do Todo: pura energia. Depois desta multiplicação, as células, cheias de Deus em si, “escolhem” se desenvolver como partes “diferentes” do nosso corpo: uma será nariz, a outra orelha, e assim por diante.

Há uma sabedoria neste processo que é puramente presente e, por isso, ocorre sem qualquer especulação ou pensamento. Podemos chamar essa sabedoria de espiritual. Aqui, nossas identidades, como por exemplo no seu caso particular, Maria, não existe. A Maria de hoje não precisou fazer absolutamente nada para que essa mágica e perfeita manifestação presente da Vida (com V maiúsculo, neste caso) acontecesse.

Vou seguir com o seu exemplo. A Maria nasce na expressão contínua desta presença. Não há passado ou futuro: tudo é simples, sem julgamentos, identificações e/ou projeções, e absolutamente natural, por ser parte deste único instante que é a própria realidade. Nesta presença, a Maria não reconhece qualquer separação de si com o mundo que lhe é externo: segue vivendo a mesma Verdade experimentada no útero, como parte do Todo.

Energeticamente, há uma inteligência para a Vida se manifestar em forma de Maria em sua família. Há um momento em que a Maria, que ainda não é Maria, que é apenas uma manifestação da Vida, “se separa” do Todo (apenas em teoria, porque na prática nunca nos separamos do Todo). A Vida veste uma fantasia de Maria e, com o surgimento do primeiro pensamento, a identificação com este personagem, e com a história igualmente “separada” em que ela está inserida, se materializa. O ego surge. Até este momento, a Vida, como parte do Todo, proveu e deu conta de absolutamente tudo o que foi necessário. E ela segue provendo e dando conta, mas a partir do surgimento do ego, a Maria passa a ter uma identidade e a se mover como autora e manipuladora da realidade em que se vê inserida, a partir dos interesses deste ego. O ego acredita que toma o controle de seus atos e que tudo depende apenas dele.

O ego surge instantaneamente após o momento de separação com o Todo. Nesta separação cria-se o espaço, até então inexistente, pois a Vida é um contínuo inseparável em sua realidade. Totalmente ligada à criação do espaço está a criação do tempo, e então passamos a pensar em tempos irreconhecíveis para a Vida Real, que são o passado e o futuro. Essa é a base fundamental da criação do ego pois, com a sensação de separação do Todo pelo espaço e o tempo, a aquela identidade, a Maria, precisa lidar com algo igualmente irreal para a Vida, que é a morte. Como nos vemos separados do Todo, como indivíduos limitados, passamos a ter medo da morte, que é simplesmente o medo de não mais existir. Então o ego, que se projeta para o futuro, passa a ser uma solução para lidar com esse medo, pois, criando fantasias em um tempo inexistente (o futuro) a partir das memórias de outro tempo irreal (o passado), ele sente a sua própria perpetuação pela imaginação.

A criação do ego e os movimentos gerados por ele, nos reconectam (ou reconectam o personagem separado) com as frequências coletivas de um mundo habitado por outros egos. Isso é o que eu vejo como karma. Muito se fala em vidas passadas e nas tendências que trazemos de outras existências. Mas eu acho que este caminho de entendimento só reforça uma identidade que, no fundo, é vazia e ilusória, pois não é permanente. Por isso, tendo a achar que isso acaba sendo muito mais uma interpretação com o olhar do ego, do personagem, do que propriamente da Vida Real. Como o tempo não é algo verdadeiro, vejo o karma, ou seja, as tendências negativas que fazem parte do ego, como uma nuvem também sempre presente. A partir do desenvolvimento desse ego, das escolhas que faz, ele se conecta com certas frequências e vibrações não harmônicas, densas. Estas tendências são carregadas de memórias e, por isso, além de se identificarem com o modus operandi do ego, trazem registros de “outros tempos”. Vou dar um exemplo: imagine um ator que vai fazer uma peça. Ele vai interpretar um personagem que é depressivo, por ter sido abandonado pelo pai aos 3 anos de idade. Quanto melhor esse ator conseguir se conectar às memórias de seu personagem (e as atitudes que elas estimulam nele), mais convincente e real será o seu trabalho.

A gente passa a sofrer quando agimos a partir do ego, pois deixamos de reconhecer a perfeição da Vida, que segue atuando e provendo tudo. A gente sai do presente, do instante Real, para ir para outros tempos que são criações deste personagem. A mente passa a tentar comandar e controlar, a partir dos pensamentos, e deixa de cumprir a sua harmônica função, que é de ser uma servidora da Vida. Daí vem o Real Serviço do ser humano: quando a mente se curva para a Vida, para o Coração, e atua a partir de seus comandos. Para mim, a definição da palavra Fluxo é o reconhecimento dos movimentos da Vida por parte do ego/mente como absolutos e inquestionáveis. Por outro lado, quando o ego/mente atua a partir da ignorância da separação, na ilusória independência e priorizando as “necessidades” da idealização de nós mesmos, cria-se a desarmonia. Antes de sermos egos, Maria, Arthur, João, Paula, etc., somos a Vida, que é a única coisa eterna e permanente que existe. Todo o resto é impermanente e há de perecer, de passar. Antes de termos necessidades egóicas e mentais, que são fruto dos nossos pensamentos, somos a própria perfeição.

Muitos mestres e sábios, através de diferentes visões, apontam para um mesmo caminho, onde possamos reconhecer nossa Real natureza e, com isso, eliminar o sofrimento, que em suas visões é desnecessário, visto que somos a própria Vida e o Amor sem começo e sem fim. Alguns trazem a potencia em se aprofundar no questionamento “Quem sou eu?”, com o objetivo de descascar as camadas irreais que vestimos e encontrar a origem essencial do que somos. São unânimes também ao falar que a causa de nosso sofrimento é a ignorância desta Verdade Absoluta, que é a nossa natureza Real, e que a realidade que vivemos pode ser comparada a um sonho.

Agora tentarei ser mais específico com o caso de um estupro, mas partindo do ponto de vista espiritual, pedido por você e que tentei expressar aqui, fazendo relação com as escolhas, que também está em sua pergunta. Para fins de entendimento, podemos considerar que temos dois tipos de escolhas possíveis: aquelas que partem do nosso Ser Absoluto, da Vida, da nossa natureza Real, e as que partem dos nossos egos/mentes, da ignorância, do personagem que vestimos, a partir da imagem idealizada que criamos sobre nós mesmos. Se somos fiéis à nossa natureza, não há sofrimento. Estamos conectados ao nosso estado natural, ou seja, somos a própria felicidade. Por mais que, eventualmente, o corpo sinta dor, ou sintamos uma tristeza, as viveremos apenas no momento presente, sem qualquer projeção. Não há identificação, apego ou aversão com qualquer estado, pois há uma consciência presente de que todos são passageiros. Esse é o estado do Ser Iluminado, da Presença. Quando estamos presentes é fácil perceber isso. Por outro lado, existem as escolhas identificadas com o que é impermanente, apegadas às alegrias momentâneas (buscando perpetuá-las) e em aversão aos momentos difíceis (na tentativa de eliminálos). Neste caso, o ponto de partida é sempre o limitado ego/mente, e certamente os frutos dessas escolhas trarão cada vez mais sofrimento, pois tenta-se o impossível. Além do mais, como num sonho ruim, que acordamos devido a sua gravidade, a acentuação do sofrimento pode ser um impulso para o despertar da ignorância (e por isso tanta gente busca autoconhecer-se só depois da dor).

Assim, fica fácil perceber que quem sofre as dores do mundo é aquele em nós que as cria: o ego/mente, suas fantasias e idealizações. A Vida segue perfeita, eterna, permanente e imutável, apartada de todos os fenômenos gerados pela ignorância, mas, ao mesmo tempo, englobando-os. O Iluminado, aquele que eliminou a ignorância e reconheceu, em prática, o seu estado natural, vê esse mesmo mundo como sendo perfeito como é, apesar de ter consciência de que ele não é real, de que não passa de um outro sonho. É por isso que os sábios e mestres trazem a potencia da autorealização como a única chave real de eliminação do sofrimento. O Ser Realizado, consciente da Vida, emana harmonia, amor, presença e verdade inspiradores mesmo para aqueles que nem o conhecem.

É muito difícil falar qualquer coisa que seja real sobre a menina que foi estuprada. Certamente o episódio, como outras tantas barbáries, são parte daquela nuvem, daquele karma, que nossa ignorância criou e segue criando. Acredito que isso seja para que possamos acordar, despertar para a nossa natureza. Mas veja o que isso gera: um movimento de luta contra a cultura do estupro. A gente cria o ego por lutar contra a morte, e o que fazemos? Só criamos morte, principalmente por não estarmos presentes, onde a Vida acontece. Eu, particularmente, não acredito em luta. Acredito SIM na cultura do Amor e da Paz, que elimina instantaneamente a necessidade das lutas e a visão distorcida das diferenças, como a que foi praticada por Mahatma Gandhi, Nelson Mandela e tantos outros (muitos desconhecidos). Vejo esse monte de manifestações como movimentos do ego, que, no fundo, sentem em si a dor criada por eles mesmos, numa instância mais ampla. Além do mais, são palavras e opiniões EGOístas, pois partem da projeção da sua própria realidade na vida daquela que eles entendem ser a vítima da história. E aí o resto é o que se vê fartamente por aí: se tem vítima, tem culpado e se tem agressor, tem agredido. Então é um abraço acolhedor para a vítima, um tiro no peito do culpado, e mais separações são experienciadas. É um jogo que estamos jogando intensamente na história da humanidade e só terá fim quando lembrarmos do que somos, quando renunciarmos ao causador dos nossos sofrimentos: o ego.

Por fim, quero dividir com você algumas inspirações abaixo:

“O universo está sempre jogando de acordo com os seus interesses. Todos os movimentos são feitos sob medida para você. Até escorregar numa casca de banana – tudo é para o seu despertar.”
“Você é o Eu Real (Self) numa jornada sonhada sobre perder-se para ter que achar o seu caminho de volta para casa. Auspiciosamente é quando o sonho está lhe dizendo: ‘Acorde.’”
- Mooji

“Eu vejo que nosso grande desafio enquanto humanidade é aprendermos a usar nossa inteligência e capacidade criativa para transcender os nossos ancestrais pactos de vingança. Precisamos nos espiritualizar a ponto de irmos além da identificação com a nossa história, que é tão permeada por choques de humilhação e exclusão. Precisamos colocar nossa consciência no momento presente, pois somente nesse lugar o amor pode fluir. Em outras palavras, precisamos aprender a ser felizes, lembrando que a felicidade está dentro de nós mesmos.”
- Prem Baba

Despertar (Foto de Arthur Belino)

Despertar (Foto de Arthur Belino)

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Aqui deixo um presente para você!
Em meados de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
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