Comendo o que não tem

Postado por em 13 jul, 2015 - Textos

“Pessoal, esse bolo é sem ovo, sem leite, sem chocolate, sem açúcar, sem farinha branca…”

Escutei essa frase de uma amiga muitíssimo querida, no intervalo de um curso que fiz no ano passado, quando demos uma pausa na aula para um café.

Depois que escutei a frase eu, um tanto maldoso, brinquei: “É um bolo feito de nada?”

Depois deste dia, passei a ficar mais atento a muito do que escuto sobre alimentação natural e suas derivadas. O que há em comum na minha pesquisa pessoal e informal sobre o tema está bem claro na frase acima: trata-se de uma filosofia alimentar baseada no que não tem.

Parece que o principal ingrediente, que dá o gosto especial ao que se está comendo, é uma espécie de gozo pelo fato de não estar consumindo algo que, aparentemente, “não faz bem” ou “está errado” consumir.

Vou dar um exemplo. Vamos supor que a equação a seguir esteja “certa”: farinha branca = glúten = faz mal pra caramba. Então, não ter farinha branca ao comer tudo que habitualmente tem farinha branca (pão, bolo, biscoitos, massa, etc.) parece que é dar um passo adiante em direção ao paraíso. Na verdade, é apenas um degrau acima na ilusória escada do ego.

Então, de uma hora pra outra, temos vários grupos com dietas do “não tem” ou do “sem”. Uma busca um tanto desenfreada por um pacote de alguma coisa que prometa algo de melhor para a sua vida fazendo crescer um mercado emergente que é composto, em grande parte, das mesmas empresas que usam farinha branca e outros “perigosos ingredientes”, só que com versões e embalagens que, em letras vivas, vendem o que não tem ali.

Nada tenho contra os diferentes tipos de alimentação e sou fã do que é novo. Apenas sinto que há um caminho interessante quando alguém, ao invés de me dizer o que não está comendo, me conta sim daquilo que está comendo, do que é novo, do que ela descobriu! Realmente me interesso e geralmente até adoto para a minha vida, não como uma doutrina, mas como uma nova possibilidade.

A sensação que eu tenho é que, além daqueles que tem realmente alguma intolerância alimentar, trata-se apenas de mais uma moda. Aquilo que comemos talvez não chegue a 1/5 de tudo que nos alimentamos diariamente, dizem alguns sábios, já que também nos nutrimos por vários outros sentidos e escolhas que estejam alinhados a nossa verdade. Mas parece que não comer alguns alimentos, de uma hora para outra, virou a tábua de salvação de muita gente. Conheço alguns que comem apenas alimentos orgânicos, “sem” um monte destes “malvados” ingredientes, e que vivem dando coices por aí, a qualquer um que o contradiga (o que até faz muito sentido).

Acontece que normalmente buscamos a felicidade, o bem estar ou a realização pessoal onde ela não está, e muitas vezes essa busca é direcionada para o que comemos. Criamos necessidades pelo medo de sofrer no futuro e passamos a acreditar que aquilo é realmente tudo o que precisamos. Então, com uma alimentação que é rotulada como “correta”, cumpre-se uma certa cobrança que é criada por si mesmo e supre-se uma falsa necessidade, normoticamente gerada pelos conceitos sociais.

O que é curioso nesta pesquisa pessoal é que, muitas vezes, acompanhei pessoas consumindo alimentos que não traziam nenhuma real satisfação pessoal. Elas não gostavam do que estavam comendo mas o faziam porque acreditavam estarem “certas”. O prazer vira “o vilão” na tentativa de controlar o futuro para que nenhuma dificuldade seja vivida lá na frente. O projeto de uma vida pela metade, que só admite um lado da existência, a luz, pelo medo da incapacidade de lidar com nossas partes sombrias que vem da falta de autoconhecimento.

Já atendi algumas pessoas que tinham seus processos pessoais extremamente impactados por modismos e/ou doutrinas alimentares que bloqueavam a escuta profunda de si e, consequentemente, o fluir natural de sua energia. Nosso sistema tem variantes que são impossíveis de serem compreendidas pela mente, mas ele sabe se comunicar para pedir o que está precisando para se alimentar, e isso varia muito de acordo com o que se está vivendo no momento. É extremamente importante autoconhecer-se para aprender a escutar aquilo que seu sistema está precisando, no presente. Amanhã ele pode pedir outra coisa, completamente diferente, e se o julgamos como “errado”, deixamos de atender nosso pedido mais íntimo.

Vejo que entramos em estados de negação por conta de julgamentos baseados em conceitos pré-estabelecidos, de tudo aquilo que está em um outro tempo que não o presente, o aqui e agora. Assim, criamos e vivemos ilusões que travam o caminhar em direção a auto realização. Cada vez mais percebo que há espaço para tudo na vida. Se algo existe, é por que serve a algum propósito, nem que seja para nos ensinar. Criamos união e contribuímos significativamente com a vida quando conseguimos ir além dos pré-conceitos e nos abrimos para nos relacionar com tudo que existe, de forma livre e harmônica.

Basta se conhecer. Não é fácil, mas é um caminho de pura verdade.

Gluten Free? Why? (Sem Gluten? Porque?)

Gluten Free? Why? (Sem Gluten? Porque?)

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