A Criança, a Presença, a Saudade e o Eterno Encontro

Postado por em 24 fev, 2016 - Textos

Um dos eventos mais marcantes que eu vivi durante esse período em que me encontro, viajando por aí, foi durante o convívio com um menino de apenas 4 anos de idade, mais especificamente no momento de nossa despedida.

Desse quase um ano viajando, em parceria com a minha amada esposa, seis meses foram passados em uma fazenda, no interior do norte da Itália. Chegamos lá para ficar por apenas duas semanas, através do programa WWOOF (World Work on Organic Farm). Este programa internacional conecta fazendas orgânicas e voluntários a fim de que haja um intercâmbio neste encontro. Os voluntários oferecem horas de trabalho e a fazenda responde pela hospedagem, alimentação e instruções das tarefas do dia-a-dia do local. Além de ser uma bela oportunidade de aprender a fazer coisas novas (nós, por exemplo, aprendemos um pouco sobre produção de mel e avelã, além da relação de cuidado com vários animais como ovelhas, cabras e burros) é uma oportunidade muito interessante de trocas de experiências de vida.

Acontece que, no nosso caso, essas duas primeiras semanas trouxeram muitos pontos em comum entre os proprietários da fazenda e nós. Eles, um casal de trinta e cinco anos, Alberto e Linda, com dois filhos, Sofia de seis anos e Edoardo, de quatro, dividiram conosco sobre a vontade que eles tinham de fazer da fazenda não só um local de produção agrícola, mas também um espaço onde fosse possível oferecer uma programação relacionada a qualidade de vida. Eu, como músico e terapeuta, e a minha esposa, como professora de yoga e terapeuta, tínhamos, com nossos trabalhos e experiências, um encaixe perfeito para este projeto que eles desejavam. A casa, que é muito bonita e especial, já contava com um salão pronto para as atividades. Como nosso convívio era cada dia melhor, fizemos um acordo para testar essa parceria por pelo menos seis meses e passamos a oferecer o nosso trabalho por lá.

O tempo foi passando e nossa relação se tornava cada vez mais profunda. Passamos a compartilhar inúmeros momentos de nossas vidas como uma só família. Isso ficou evidente no contato com as crianças, que era cada vez mais forte, sempre com muito amor e carinho. Além disso, naturalmente íamos nos tornando uma referencia para elas (e elas também para nós).

Depois de quatro meses, ficou claro para mim e para a minha esposa que aquela etapa da nossa viagem teria seu fim depois deste período “teste” de seis meses que havíamos acordado. Em nós, despertava a certeza de que deveríamos seguir o nosso caminho, para encontrar novos espaços e pessoas. Ou seja, seriam mais dois meses por ali antes de seguir viagem. Depois que conversamos sobre a nossa decisão com os proprietários da fazenda, que agora eram nossos grandes amigos, iniciou-se um processo de cuidar das crianças para dar essa informação, já que elas estavam muito habituadas a viver conosco.

Um dia, durante o nosso jantar, conversávamos sobre as próximas etapas de nossa viagem. Isso já era falado livremente na frente das crianças pois já havíamos conversado com elas algumas vezes sobre a nossa partida. Mas parece que, neste dia, a “ficha caiu” para Sofia. Ela, que é sempre muito emotiva, dessa vez saiu da mesa discretamente no meio daquele papo. O pai, Alberto, que já a conhece profundamente, entendeu que tinha acontecido alguma coisa diferente e, minutos depois, foi atrás dela. Edoardo, o mais novo, seguiu o pai.

Passados uns 10 minutos, Alberto voltou para a mesa. E então, perguntamos o que tinha acontecido, se era ela precisando de auxílio no banheiro ou alguma coisa do tipo. E então ele nos disse: “Sofia só entendeu agora que vocês dois irão realmente embora”. E ele continuou: “mas o mais interessante foi ver como Edoardo reagiu”. E ele nos descreveu o seguinte diálogo:

- Edoardo:  pai, porque a Sofia está chorando?
- Alberto: porque ela ficou triste por saber que daqui há algum tempo o Arthur e a Júlia vão embora.

E então, sem entender o que estava acontecendo, mas com uma maestria de quem entende o que é estar presente, no aqui e no agora, Edorado falou:

- Mas pai, o Arthur e a Júlia estão aqui!

A profundidade da sabedoria latente na criança, expressa pelo menino, nos nutriu a alma naquela noite. Mas ele ainda guardaria outras lindas lições para nós.

No dia da nossa partida, enquanto a emoção tomava conta de todos, Edoardo se mantinha com os olhos abertos, brincando conosco, e um pouco confuso do porquê seus pais e irmã, ou seja, sua família, estavam chorando. E lembrando da história anterior, ao olhar dentro dos seus olhos, pude ver o que ele via. Não havia razão para que ele sentisse dor ou sofrimento. A gente estava indo embora, mas ainda não tínhamos ido embora. Nós estávamos ali e para ele, era como qualquer outro dia, como aqueles que saímos para ir ao mercado. Não havia razão para a tristeza, pois a falta ainda era uma teoria muito distante da prática, num futuro que ele não podia entender por se manter inteiramente presente. Sim, era uma despedida, mas ainda estávamos juntos.

Saímos da fazenda e fomos passar aproximadamente um mês na casa de uma amiga, ainda na Itália. Como a casa dela ficava há menos de duas horas da fazenda, nossos amigos combinaram de ir nos encontrar lá. Aproveitamos um belo dia juntos, com lembranças, sorrisos e abraços. Na hora de se despedir, Edoardo chegou perto de nós e, enquanto nos abraçava, disse sabiamente: “esse é um abraço para sempre!”. E assim, com mais esse presente em forma de palavras, com a poesia no ar, recebemos o seu abraço de despedida.

Nas duas despedidas Edoardo estava inteiro. Sua presença me fez compreender que o sofrimento da despedida é uma produção do nosso medo por um possível sentimento de falta futura, antes mesmo dessa falta efetivamente existir. É como uma antecipação de algo que ainda nem sabemos se realmente vamos sentir. Muitas vezes isso é feito para comunicar alguma coisa, como por exemplo um arrependimento por algo ou para dizer a alguém o quanto esta pessoa é importante para nós, mas tudo isso, por não ser presente, se torna apenas um drama com ares de romance. E isso se enraíza na nossa cultura.

Tenho dúvidas se chegará o dia em que Edoardo vá sentir a nossa falta. Como sua mente ainda não está habituada a produzir (ou reproduzir) os sentimentos futuros, ou seja, a criar dramas em cima do que não existe, ele segue presente, levado pela espontaneidade que é característica das crianças, com os olhos abertos para, ao invés de criar uma falta pelo que passou, se preencher de tudo aquilo que o presente traz para ele, afinal, todo dia é um novo dia e com novas cores para quem vive no aqui e agora.

Durante o nosso período na Europa, muitas vezes em que nos perguntavam sobre a nossa origem, após respondermos que somos brasileiros, as pessoas mencionavam a palavra “saudade”, visto que é uma palavra famosa por só existir na língua portuguesa. Depois, nos perguntavam sobre o real significado desta palavra. Nossa resposta era sempre mais ou menos assim: “saudade não é algo triste, é como lembrar de alguma coisa que se viveu e, naquele momento, se abrir para reviver aquilo dentro de você, como uma presença do que está ausente”. Talvez seja isso que Edoardo sinta quando falarem de nós perto dele ou ele ver uma foto nossa. Este pequenino italiano já sabe muito bem o que é sentir saudade de verdade pois, em presença, encontra sempre com quem quiser dentro de si.

Edoardo e il suoi formaggio (Foto de Arthur Belino)

Edoardo e il suoi formaggio (Foto de Arthur Belino)

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