As diferentes formas de amar

Postado por em 2 out, 2013 - Textos

Relacionamentos sempre nos presenteiam com muitos desafios. Sri Prem Baba, líder humanitário e mestre espiritual da antiga linhagem Sachcha, costuma dizer que os relacionamentos são a universidade da vida, principalmente quando resolvemos vive-lo de forma plena, buscando não aprisionar emocionalmente o outro, criando pequenos jogos que trazem condicionamento aos nossos atos amorosos.

Algumas vezes, os problemas e dificuldades nos relacionamentos são ocasionados por misturarmos formas de amar e etapas do amor. Em grego, há um vocabulário com diferentes palavras para falar destas etapas.

A primeira etapa é Porneia, o amor voraz e devorador, o amor do bebê por sua mãe, o amor de consumo. Amo o outro, portanto como-o. Esse amor é muito lindo em um bebê e menos bonito em um senhor de 50 anos. Essa etapa ocorre em um momento da nossa evolução onde, para crescer, temos a necessidade de nos nutrirmos do outro.

A palavra seguinte é Pathé, que podemos traduzir por paixão. A paixão nos faz passar por estados extraordinários, maravilhosos, mas pode ser também um inferno, pelo ciúme que desencadeia. Esse amor não é de consumo, mas de posse, de dependência e também de necessidade. Aqui o amor não é um dom, é uma necessidade, uma solicitação. As vezes, o que chamamos de amor não é senão posse, dependência, necessidade. Esta forma de amor é uma forma de sofrimento, é um amor que quer aprisionar o outro. Na nossa cultura, as canções e romances que ouvimos e lemos nos dão a impressão de que não existe amor feliz. Todas as histórias de amor são, ao mesmo tempo, histórias apaixonadas, possessivas, ciumentas e, frequentemente, dolorosas.

Depois vem a palavra Eros, que expressa não somente um amor de solicitação e necessidade, mas também de desejo. Eros já é uma forma de amor muito evoluída. Não estamos mais no consumo do bebê, na possessão e dependência que caracterizam a criança e o adolescente, mas começamos a viver uma sexualidade adulta. Um amor de uma pessoa por outra, desejando-a e maravilhando-se com ela. Para Platão, Eros é o amor da beleza, o amor da grandeza que nos falta.

Na sequencia, temos a palavra Storgué, que pode ser traduzida como ternura e harmonia. É uma maneira de harmonizar o seu ser e ritmo, com o ser e ritmo do outro. A harmonia entre duas pessoas tem como consequência uma cura da terra. Os antigos chineses diziam que, da harmonia entre dois seres depende a harmonia do universo.

Chegamos a palavra Philia, que encontramos em Filosofia (o amor a sabedoria) e em Filantropia ( o amor aos seres humanos). Em grego, distinguem-se diferentes formas de Philia:

> Philia Physiqué: o amor parental, a amizade entre parentes. O amor da mãe ou do pai ela sua criança e vice-versa. É igualmente o amor entre irmãos.

> Philia Zeiniqué: é o amor da hospitalidade, o respeito por aquele a quem se recebe. Não há a mesma familiaridade, mas pode haver a mesma profundidade e pode mesmo ser mais profundo do que nossas relações familiares.

> Philia Etairiqué: é o verdadeiro amor-amizade entre dois egos, duas pessoas. É o amor do dar e do receber, uma relação de confiança, ajuda e parceria.

> Philia Erotiqué: é também uma amizade, um amor com respeito, um amor que respeita a liberdade do outro. Não é muito fácil de entender porque não é paixão, não é dependência, mas há uma qualidade de ternura, de harmonia, de grande respeito e atração que faz dela uma amizade muito profunda.

Ha ainda outras palavras para designar o amor.

A palavra Énnoia quer dizer o dom, a doação. É uma qualidade de amor que manifesta uma grande generosidade do coração. É a libido, a energia vital, que se manifesta ao nível do coração.

Kháris significa gratidão. Ter gratidão pela existência do outro. Agradecer ao outro por existir e maravilhar-se pela sua existência. Frequentemente, faltamos uns com os outros com essa gratidão. Vivemos na ingratidão quando não sabemos reconhecer as doações que nos são feitas.

Finalmente, chegamos a última palavra desse vocabulário grego: Agápe. Podemos traduzi-la como como a graça ou a gratuidade. É essa gratuidade do amor em que se ama por nada, por causa de nada. Amar ser ter nada em particular para amar. Amar não a partir de sua carência, mas amar a partir de sua plenitude. Amar não somente a partir de sua sede, mas amar a partir de sua fonte que corre.  É proposto ao ser humano essa experiência. Ele é chamado para exercitar sua capacidade de gratuidade e graça. Em um mundo onde tudo se paga, onde nada é gratuito, ele é chamado a introduzir graça e gratuidade.

A palavra amor tem sentidos bem diferentes. Não é preciso opô-los uns aos outros. Há uma criança que tem fome e sede, um adolescente que pede para ser reconhecido. Não podemos esquecer do desejo que nos habita. Somos igualmente capazes de harmonia e ternura e seria uma lástima nos privarmos da amizade, desta troca, deste partilhar, desta capacidade de doação e de perdão que habita em nós. E podemos fazer também a experiência da graça, de gratidão e de gratuidade em nós. Assim fazemos a experiência divina em nosso interior.

O amor é um arco-íris do qual conhecemos apenas algumas cores. Temos ainda cores a descobrir. Mas o arco-íris, também, são todas as cores juntas.

(Baseado no livro O Corpo e Seus Símbolos, de Jean-Yves Leloup)

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