O dinheiro e a confiança

Postado por em 28 jul, 2015 - Textos

Semana passada fui caminhar em um bosque perto de casa. Fui lá porque queria observar os tipos de amoras, já que são muitas delas neste bosque. Há pouco tempo fiquei sabendo das qualidades terapêuticas da folha de amora e venho usando-a para fazer chás.

Chegando lá, peguei um caminho diferente daquele que eu já conhecia. Me senti chamado por uma pequena colina aberta, cheia de flores do campo, que parecia ter seu final numa bela vista. Meu objetivo de observar as amoras mudou: neste momento, o que eu queria era seguir no caminho da colina. Chegando ao seu final, a vista não era tão bela assim. Talvez porque caminhar até lá tenha sido mais gostoso do que eu esperava.

No caminho de volta, resolvi andar ao lado do bosque. Chegando mais perto das árvores, percebi que em meio a elas estavam muitos pés de amora. Todas maduras, crescendo naturalmente sem qualquer intervenção. Obviamente comi algumas, peguei folhas para o chá e segui caminhando. Foi então que, olhando para dentro do bosque, encontrei um resto de árvore que havia sido cortada. Ela era grossa e suas raízes ainda estavam firmes na terra. Era como um banco natural e confortável em meio a um ambiente que rapidamente me conectou ao meu silêncio interno.

Sentei e fiquei ali por um tempo desfrutando de mim e do bosque. Fechar os olhos me permitiu sentir ainda mais intensamente a doçura das amoras que eu acabara de comer e que ainda estavam ali, perfumando a minha boca. Me sentia bem-vindo naquele lugar e, depois de um tempo, nem as poucas moscas que pousavam sobre mim eram capazes de me incomodar.

Ao abrir os olhos vi que havia algo branco no chão, sob a terra. Olhei mais atentamente e percebi que era um saco de pano fechado. Parecia que alguém pegou aquele saco e o escondeu debaixo da terra. Então pensei: “imagina se isso é um saco cheio de dinheiro?”. Essa pergunta desencadeou um maravilhoso mergulho dentro de mim.

A fantasia de achar um saco cheio de dinheiro me trouxe a certeza de que absolutamente nada mudaria na minha vida neste momento. Independente do que um saco de dinheiro pudesse pagar, eu não poderia estar mais completo ou realizado do que estou agora, no presente. Pela primeira vez na vida percebi que o valor do dinheiro diminuiu para mim, e que não é mais como foi um dia. Entendi também que esta redução do valor do dinheiro foi proporcional ao crescimento do meu valor próprio. Confiando cada vez mais no que sou para seguir o que acredito, sem parar nos julgamentos do que sinto, hoje vejo que eu posso fazer muito mais por mim do que o dinheiro, e que não há tamanho para um saco de dinheiro que seja maior do que a capacidade de realização daquilo que é a minha verdade.

Por algum tempo em minha vida, repeti variações de frases do tipo: “se eu tivesse X de dinheiro eu largava tudo”. Certas vezes também escutei: “se eu ganhasse Y de dinheiro eu poderia fazer isso ou aquilo”. Hoje fica claro que a confiança não estava em mim quando eu falava isso. Inconscientemente, não me via capaz de ser o agente de realização da minha própria vida e, por isso, ia atrás daquilo que eu achava que poderia me proporcionar tal realização: o dinheiro. Me coloquei disponível para trabalhar em estruturas que não estavam alinhadas à minha potência, à minha luz, em função da ilusão de que, um dia, num futuro que não existe aqui e agora, eu pudesse ser mais feliz.

Para facilitar o entendimento, podemos pensar em: dinheiro = confiança. Não tinha confiança em mim e, com isso, fiz de tudo para acumular confiança, acreditando que um dia eu teria o suficiente para começar a viver de verdade. Depois de alguns anos neste ciclo, fiquei doente. A falta de confiança em mim me levou a escolhas completamente diferentes daquilo que faz vibrar o meu coração. Me vi sendo alguém que, no fundo, eu não queria ser. A sensação de estar desperdiçando a minha vida me tornou íntimo da ansiedade e, depois, do medo.

Cada um que por aqui passa, nesta experiência do viver, veio contar uma história que ninguém mais pode contar. Quando estamos alinhados a isso, nos conectamos com o nosso caminho e o propósito da nossa vida, na relação a tudo que nos rodeia. Nesse caminhar, encontramos nossa tarefa. Ela é grandiosa, mas nunca pesada.

Se damos mais valor ao dinheiro do que a nós, ele passa a ser a prioridade. Vamos aonde ele está, independentemente de nos sentirmos felizes com esta direção, e esquecemos da nossa tarefa individual. Quando damos mais valor a nós do que ao dinheiro, ele pode encontrar seu lugar harmônico em nossas vidas, passando a ser apenas mais uma energia que nos serve, a fim de que sigamos em frente na realização do que é potência em nós.

Celebrei o meu valor e a alegria de encontra-lo no bosque. Foi como achar um pote de ouro no final do arco-íris. Depois que fui embora, me toquei que não cheguei a olhar o que afinal havia dentro do saco. Fechei os olhos e percebi, dentro de mim, uma abundante confiança, com cotação altíssima na bolsa de valores da minha vida.

Escrevo estas linhas não porque me sinto melhor que alguém. Escrevo porque eu, nos meus momentos de mais profunda dor, adoraria ler um relato como este e saber que é sim possível viver de um jeito realmente simples: sendo fiel a felicidade que já reside em nós.

la fiducia (foto de Arthur Belino)

la fiducia (foto de Arthur Belino)

———————————————————————————————————————————————————
Aqui deixo um presente para você!
Em meados de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
———————————————————————————————————————————————————