Quando a escolha vem do coração

Postado por em 30 set, 2015 - Textos

Nesta última semana encontrei com uma grande amiga que eu não via há alguns anos. Foi um encontro muito especial com passeios juntos e conversas. Em um dos nossos papos, ela comentava que tinha acabado de ver uma casa para alugar e havia algumas dúvidas que pairavam sobre sua decisão. Atualmente ela mora em um apartamento e sempre sonhou em mudar-se para uma casa com jardim. A dúvida não era apenas em função da transição de um espaço para o outro: ela resolveu ir morar com seu namorado e, em algum lugar dentro de si mesma, também não havia clareza sobre esta decisão. E então começamos a falar sobre, afinal, o que move nossas escolhas.

Diariamente carregamos conosco um grande e vasto universo inconsciente. Parte deste universo é feito de memórias que nos agradam, pois estão relacionadas a experiências que nos presentearam com boas sensações. Uma outra parte deste inconsciente está repleto de experiências que foram difíceis de serem vividas. Geralmente a maioria destas memórias, que nos marcam por algo que julgamos ter sido ruim, ainda não passou por um processo de amadurecimento, que é quando conseguimos compreender a função daquilo (como e para que criamos e/ou atraímos uma experiência) em nossas vidas. E assim, sem o amadurecimento necessário, as memórias negativas continuam bloqueando nossos caminhos.

Nossos níveis inconscientes são, ainda, povoados por diversos estímulos que nem estão diretamente ligados às nossas próprias experiências. Um dos níveis que é mais popularmente conhecido foi pesquisado por Jung e chama-se inconsciente coletivo. Resumidamente, aborda a forma como somos influenciados a partir da memória e dos movimentos da humanidade. É, inclusive, algo que também nos conecta enquanto sociedade.

Resumindo e simplificando: no momento das nossas escolhas, somos influenciados por um grande complexo de estímulos. A nossa mente, que responde pelo nosso consciente, é em nós a responsável por decidir. E é exatamente neste ponto que nos complicamos na hora de fazermos escolhas.

Não quero aqui denegrir a mente e dizer que ela é a “vilã da história”. Não mesmo! A mente é ótima e tem diversas funções fundamentais para o nosso equilíbrio e bem viver. No entanto, fomos (e ainda somos) doutrinados a acreditar que APENAS com a mente, em sua solitária razão, conseguiremos fazer as escolhas que nos conduzam para um sonhado caminho feliz. Ledo engano: basta olhar para o resultado que esta mesma mente vem criando no mundo para perceber que, sozinha, não pode nos conduzir a escolhas equilibradas que favorecem a vida.

Há um consenso entre muitos estudiosos e cientistas de que nossas motivações são, pelo menos, 95% inconsciente. Ou seja, o nosso pequeno consciente (5%), sob responsabilidade da mente, fica a todo tempo buscando caminhos onde os resultados das nossas escolhas estejam sob o seu controle. Ele tenta a todo tempo, ilusoriamente, garantir que o que foi difícil no passado não irá acontecer novamente. E muitas vezes ele também se esforça para tentar repetir o que é memória positiva. Esses dois movimentos ignoram completamente uma premissa básica da existência: nada se repete na impermanência da vida.

Voltando para a conversa com a minha amiga. Passamos por todos esses viés e no meio do papo ela me fez uma pergunta muito pertinente: “mas então como podemos conhecer todas as nossas motivações para sabermos se estamos fazendo uma escolha verdadeiramente nossa? Como podemos saber que não é uma memória negativa que nos impulsiona?”. Uma pergunta típica e normal da mente que, vorazmente, sonha em se apropriar de tudo aquilo que ela não conhece, principalmente num momento de uma escolha tão importante.

A resposta é simples e pode ser assustadora para a condicionada mente que tenta controlar tudo: não há como saber. A boa notícia é que há um caminho muito mais simples e claro para se fazer escolhas. No entanto será necessário chamar a mente para um papo e dizer que, para se abrir a este novo caminho de se fazer escolhas, ela deverá aprender a abrir mão de controlar o resultado, e isso é um processo que exige prática e poderá levar algum tempo.

Podemos investigar melhor este caminho. Sempre que nos deparamos com o momento de fazermos uma escolha, já existe uma decisão em nós conectada com o que é verdade em nosso ser, o que eu gosto de chamar de decisão do coração. Em meio a esta decisão existem sempre outras possibilidades, quando estamos em dúvida. Essas outras possibilidades são criadas por tudo aquilo que é insegurança em nós. Elas só surgem porque estamos com medo e é este medo que nos distancia da coragem (cor=coração / agem=ação).

Se há uma decisão da verdade, aquela que provém do coração, do que é amor em nós, necessariamente as outras são mentiras. E como é possível identificarmos a decisão da verdade entre as outras opções não verdadeiras que criamos por insegurança?

Há uma parte em nós que nunca mente: o sentir. As sensações e sentimentos tem função fundamental para o equilíbrio do nosso sistema: alimentar a mente para que ela, mesmo sem saber bem o que vem pela frente, tome a decisão que está alinhada ao caminho da verdade e, consequentemente, ao Deus que há em nós.

Muitas vezes sentimos a decisão a ser tomada mas escolhemos outro caminho, porque pensamos demais e priorizamos a razão ao sentir. Não precisamos fazer muito esforço para reconhecermos momentos em que um sentimento traz uma clareza de caminho, principalmente aqueles primeiros sentimentos que surgem subitamente ao entrarmos em contato com a escolha que devemos fazer. Mas a mente é muito astuta com seus medos e, rapidamente, consegue apresentar outras opções de escolha. É preciso coragem para escolher com o coração pois, se a mente tem medo, é porque ainda resistimos às ações que decorrerão desta decisão.

Quando a mente está buscando controle, o foco das nossas decisões está fora de nós. No entanto, na medida em que aprendemos a escutar as sensações e sentimentos, a mente começa a se abrir para se nutrir desta nova fonte de sabedoria que reside em nosso ser. Assim, reconhecemos e passamos a validar a referência que existe dentro de nós.

Como diz uma linda canção que muito me alegra, “é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê”.

Ainda que não saibamos o que vem pela frente, quando caminhamos naquele que é o nosso caminho, único e insubstituível, trocamos a ilusão do controle pela magia da vida. É nessas horas que suspiramos profundamente por vivermos as surpresas do que não é possível prever. É quando a criação da vida se apresenta a nós e reaprendemos a sermos espontâneos e livres.

Ampliação Divina(foto de Arthur Belino)

Ampliação Divina (foto de Arthur Belino)

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