Essa tal espiritualidade

Postado por em 23 jul, 2015 - Textos

Costumo chamar as pessoas a quem atendo de Interagente. Aprendi isso com um grande amigo, também terapeuta. Trabalhamos juntos por algum tempo e nunca gostamos de chamar aqueles que passavam pelos nossos atendimentos de cliente ou paciente. Compartilhávamos do sentimento de que todas as pessoas que buscavam o nosso trabalho traziam partes de nós para serem vistas e trabalhadas também por nós. Daí um dia ele chegou com essa nova palavra, Interagente, pelo entendimento de que o trabalho terapêutico se dá a partir de um processo interativo.

Há cerca um mês uma querida Interagente me escreveu um e-mail com uma dúvida muito pertinente. Depois, lendo novamente a troca de e-mails, percebi que a mesma dúvida dela já tinha chegado até mim por diversas pessoas diferentes. Eis a questão e, em seguida, a resposta:

Tenho uma pergunta sobre espiritualidade. Eu não me sinto à vontade e nem sinto que pertenço a nenhuma religião ou crença, mas mesmo assim as vezes vou a alguns lugares. É claro, toda organização religiosa quer sempre mais “fiéis”. Em um desses lugares que fui, um templo taíosta mas que mistura outras várias coisas, por diversas vezes fui cobrada a estar lá, “trabalhando a minha espiritualidade”. Claro que fiquei sugestionada, mas não acho que eu seja essa pessoa, que queira estar com frequência em alguma casa ou entidade, selando um compromisso. É possível estar conectada com a minha espiritualidade sem fazer parte de nenhuma religião?

Resposta:

Acredito que todos nós devemos dar atenção a isso que chamamos de nossa espiritualidade. Fomos intensamente ensinados a usarmos muito os nossos sentidos que se relacionam com o que é matéria. No entanto, por trás de tudo que é matéria há energia, um mundo sutil que muitos chamam de espiritual e que se relaciona a todo tempo conosco. Antes de nos comunicarmos praticamente, olhando para o outro e escolhendo nossos gestos e palavras, nos comunicamos energeticamente, ou seja, espiritualmente. Nessa comunicação a troca sempre vai além daquilo que a nossa mente está tentando criar. Para que tenhamos um conhecimento amplo e mais verdadeiro do que somos, o que podemos chamar de autoconhecimento, é necessário que nos aprofundemos nesse contato com as nossas partes que não são matéria. E isso pode ser feito de muitas formas, além de qualquer estereótipo, imagem ou rótulo, pois existem tantos caminhos diversos quanto caminhantes. Uma vez li, num livro que gosto muito, uma frase que me marcou: se Buda estivesse vivo, dificilmente seria Budista, pois Buda seguiu seu próprio caminho, independente de uma doutrina.

Acredito que existam pessoas que fazem esse contato com o que não é matéria ligadas a alguma religião, fazendo práticas direcionadas, como rezas, meditações, respirações e etc. Outras pessoas não. É possível ser profundamente espiritualizado sem saber teoricamente o que isso significa. Já escutei algumas vezes que o sentido e a função essencial da religião são de religar o homem a esse aspecto mais amplo, a um outro nível de consciência, que muitos chamam de Deus. No entanto, toda religião passa pelo homem e o homem, naturalmente, com suas questões e desafios particulares, tende a relativizar tudo que passa por ele. Ao mesmo tempo, há uma grande tendência em buscar o absoluto por meio de mestres e guias que estão fora de nós, em ser dependente de alguém que nos serve como mensageiro de um Deus também externo, que nos diga o que fazer para sermos mais felizes.

Eu também não tenho religião e procuro sentir e viver a minha espiritualidade sem intermediários diretos, na medida que tomo tudo que se relaciona comigo como um grande espelho de mim. De qualquer forma, não deixo de, eventualmente, frequentar algum espaço religioso em que eu me sinta bem. Como você, também não consigui me sentir chamado a ser parte de nenhum grupo ou instituição religiosa até agora. Entretanto, quando vou a algum espaço religioso, procuro tirar o melhor de lá pois, independentemente das mazelas humanas que são responsáveis por tentar criar “fiéis”, muitos desses espaços são energeticamente trabalhados para facilitar um contato maior com o Deus que existe em nós.

O compromisso que selamos conosco é, certamente, um grande passo, talvez o principal, para estarmos mais abertos a sentir o que é a “tal” da nossa espiritualidade.

il libro (foto de Arthur Belino)

il libro (foto de Arthur Belino)

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