Foto para quem?

Postado por em 22 ago, 2016 - Textos
Selfie

Selfie

Eu adoro fotografia. E tenho gostado cada vez mais de fotografar. Estou há quase um ano e meio viajando, juntamente com a minha esposa, e logo no início da viagem resolvemos comprar uma boa máquina fotográfica para registrar parte da poesia deste período. Algumas vezes em que paramos para organizar as fotos, reencontramos sensações que cada momento fez despertar em nós, e isso é algo que não é possível descrever. Assim, cada foto torna-se um tesouro.

Neste momento escrevo de Ko Kut, uma lindíssima ilha da Tailândia. Chegamos aqui há exatamente uma semana e, se seguíssemos o nosso plano inicial, já deveríamos ter partido de cá. Um dia antes da partida que havíamos planejado, percebemos que não queríamos ir para outro lugar neste momento, e então resolvemos continuar por aqui.

Ontem fomos pela segunda vez numa maravilhosa cachoeira daqui da ilha, chamada Klong Chao Waterfall, com água verde cristalina e poço daqueles grandes e profundos que se pode mergulhar e nadar. Também dá para ficar debaixo da queda d’água, recebendo massagem nas costas, ou até passar por detrás dela. É definitivamente um “parque de diversões” para os amantes de cachoeiras.

Chegando lá, nem parecia que estávamos ali pela segunda vez: a beleza é tão grande que os olhos da alma despertam e nos fazem viver uma profunda presença, e o que é presente é sempre único. Fui direto ao encontro da água: mergulhei, nadei até a queda da cachoeira, passei por trás dela, voltei e sentei para admirá-la. Vi que havia um homem sentado numa pedra debaixo da queda d’água, meditando. Pensei: “que grande ideia sentar ali e silenciar!” Dois segundos depois percebi que, na realidade, ele não estava meditando. Era apenas pose para o amigo que tirava fotos dele. Depois chegou um casal com uma Go Pro, a câmera “sensação”, a prova d’água, e que vemos aos montes entre os viajantes. Filmaram e fotografaram vários saltos, mas não vi darem sequer um mergulho sem a câmera. Teve até o momento da clássica foto (ou filme, não sei) onde um deles ia para baixo da queda d’água, levantando os braços, como se estivessem sendo abençoados pela cachoeira, até que o outro sinalizava o fim do “take” para então trocarem de posição. Registros feitos, vestiram suas roupas, guardaram a câmera e partiram de lá.

De antemão, é importante mencionar que esta escrita não tem um tom de crítica, mas sim de reflexão, pois a própria escrita é dela um resultado. Por isso, não tenho a intenção de fazer julgamentos, mas sim de clarear o próprio reflexo do que, enquanto Unidade, estamos escolhendo alimentar em nós.

Sem qualquer saudosismo, é curioso fazer o paralelo com o tempo das câmeras fotográficas analógicas, que precisavam de filmes e de revelação das fotos. Eram três tipos de filmes disponíveis para estas câmeras: doze, vinte e quatro e trinta e seis “poses”, ou fotos. Via de regra uma pessoa até podia, no caso especial de uma viagem, comprar alguns filmes de trinta e seis “poses”, mas dificilmente seriam muitos, já que havia também o custo da revelação. Então, para cada encontro com um lugar especial, como por exemplo a cachoeira de Klong Chao, eram, no máximo, uma meia dúzia de fotos e pronto. Em geral as pessoas economizavam “poses” para outros dias e lugares. Então, passado o momento das fotos, deixava-se a máquina de lado para viver o maravilhoso instante de estar no lugar, em presença. Também havia mais daqueles (cada vez mais escassos) que primeiro viviam o encontro para depois tirar algumas fotos de recordação. E não tinha essa de ver se a foto ficou boa ou tirar várias “para garantir”. Era um clique e só.

É também interessante perceber que a fotografia é algo que está relacionado com o futuro, pois em si traz o desejo de posteridade, de levar o registro de um momento especial para ser vivido de uma outra forma, num outro instante. Para mim, isso tem a sua beleza.

No entanto, ao ver o “meditante” e o casal na cachoeira, e outras tantas pessoas por outros belos e inspiradores locais, me pergunto se não estamos deixando de viver esses encontros para trocá-los pela criação de romances e ficções que vão acontecer em redes sociais mas que, na realidade, não estão acontecendo onde as fotos e filmes estão sendo registrados, o que, por sua vez, torna esses mesmos registros falsos e inautênticos. Trata-se de trocar a presença e a verdade de um momento por coisas que não aconteceram. É como se, ao invés de estar sentado, refletindo sobre tudo isso, eu pedisse para que alguém tirasse uma foto minha olhando para o “meditante” e o casal, talvez fazendo uma cara de reflexão, e assim deixando de lado a reflexão para dedicar-me apenas a criar uma representação fotográfica da reflexão que não teria existido.

Novamente: não procuro trazer um julgamento com esta escrita, mas a reflexão se estamos conscientes disso, se temos consciência de que há uma outra foto, definitivamente verdadeira, para cada um desses momentos. Nos exemplos citados, essa foto enquadraria não só o “meditante” ou o casal em seus saltos, mas também as câmeras que os registraram, quase como um making of.

Será que estamos vendo verdadeiramente os locais que nos encontram, e vivendo o contato direto desta relação, ou estamos nos perdendo no intermediário fotográfico, nos limitando aos pensamentos sobre seus registros e, consequentemente, ao compartilhamento deles? Não há foto no mundo que possa substituir a presença de um momento. Por isso a foto que não registra um momento significativo é uma foto vazia, sem substância, que provavelmente ficará perdida em meio a tantas outras num HD esquecido ou num instante perdido de uma “timeline”.

Sinto que esta reflexão seja válida pois ela traz a tona algo muito importante: onde colocamos a nossa atenção. Acredito que a nossa atenção seja talvez o recurso mais valioso que temos para investir na vida. Se, ao invés de colocar a atenção no fluir desta escrita, eu resolvesse pedir para alguém tirar uma foto minha escrevendo, minha presença com a escrita se perderia para viver a atenção da foto, como também se perderia se o foco da minha atenção fosse uma necessidade do que eu quero ser ou ganhar com o texto. E, diferentemente do que muitos de nós acreditamos, não é possível estar verdadeiramente presente com a atenção “fatiada” em diferentes focos.

Na sequencia da reflexão, conversando com a Júlia, minha esposa, ela ampliou-a, mencionando a agitação da atualidade, nesse desafio de lidar com todas as distrações que nós mesmos criamos para nos relacionarmos. O acesso a esse arsenal midiático, de câmeras e celulares que hoje são até a prova d’água, e as redes sociais, que se “alimentam” de seus registros, escancaram a realidade deste desafio. Na ansiedade por construir personagens, distanciamo-nos do reconhecimento da potência do que somos e podemos viver em presença. Sem perceber, abrimos mão da percepção de que já somos livres e perfeitos.

Não acho que atualmente somos mais agitados ou ansiosos do que antes, no tempo das máquinas fotográficas analógicas. Naquela época, nós, enquanto sociedade, nos dedicávamos a criar o mundo de hoje, como o cenário perfeito para lidarmos com nossas ilusões e, assim, transcende-las. Há uma sabedoria perfeita por trás de tudo e, no fim das contas, não há razão para nos preocuparmos.

Por tudo isso chamo esta escrita não de crítica, mas de reflexão, pois acredito que refletindo-nos, como espelhos, uns dos outros, temos uma definição mais precisa, algo que nenhuma foto ou vídeo pode nos proporcionar.

Klong Chao Waterfall

Klong Chao Waterfall (O que você faria primeiro: um mergulho ou uma foto?)

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