O Fundamental Encontro Antes do “Fim do Mundo”

Postado por em 10 jun, 2016 - Textos

Dia desses, numa noite de chuva, resolvi escolher um filme para ver. Isso só foi possível porquê, no meio dessa viagem em que me encontro, estava hospedado em um hotel com uma boa internet, o que tem sido raro nos últimos meses, que passei entre Índia e Myanmar. A veloz internet do hotel em questão me permitiu encontrar um filme para assisti-lo pelo computador.

(Para saber mais sobre a viagem que eu estou fazendo há um ano, clique aqui e/ou aqui)

Numa busca rápida, por alguns sites sobre cinema que estou habituado a visitar, um nome me chamou a atenção: “Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo”. E então, sem querer saber muito mais sobre sua história, o escolhi para assistir.

O filme começa de uma forma um pouco nonsense, talvez propositalmente, pois aborda o comportamento das pessoas em suas pseudo-liberdades por estarem vivendo sob a informação de que, em três semanas, um asteroide entrará em colisão com a Terra, destruindo assim todo o planeta. A ameaça e a consequente aceitação do fim de suas vidas faz com que as pessoas abandonem tudo aquilo que não gostam mas, na crença de um amanhã, seguiam suportando: empregos, casamentos, leis, regras, etiquetas, etc. Todos passam a fazer apenas o que querem e, com tanta coisa reprimida em cada um e no inconsciente coletivo, talvez sem saber muito bem como viver o que realmente querem, mergulham sem restrições em prazeres que são tabus e “socialmente proibidos”, como drogas, álcool e sexo. Por outro lado, o personagem principal (Dodge) parece não ver sentido naquilo.

Além do senso de presença que o filme traz para os personagens principais (Dodge e Penny), o que mais me chamou a atenção foram dois personagens totalmente coadjuvantes: a diarista mexicana que limpa a casa do personagem principal e o apresentador de uma espécie de Jornal da TV.

Dodge por duas vezes tenta liberar a diarista (Elsa), dizendo que, em função do que estava para acontecer, não havia mais necessidade de que ela fosse trabalhar, e que era melhor que ela ficasse com sua família. Nas duas vezes, há três e uma semana respectivamente do impacto do asteroide na Terra, ela não entende, pergunta se está sendo demitida, se mostra triste por pensar que não vai mais fazer o seu trabalho, pois diz que gosta de limpar e que gosta de Dodge. Quando ele tenta explicar suas razões para liberá-la olhando para ela, seus argumentos nunca se completam, pois ele parece perceber que ela trabalha ali porque realmente quer. E então, nos dois momentos, ele concorda que ela vá na semana seguinte. É curioso ver ela demonstra nem saber muito bem sobre o que ele está falando.

O caso do apresentador do jornal da TV é parecido. Há uma semana da previsão do impacto do asteroide, Dodge está vendo o jornal da TV. O apresentador traz a notícia de que a colisão do asteroide com a Terra foi antecipada em uma semana e acontecerá naquele mesmo dia. Parece já não haver mais ninguém na emissora. Na sequência, ele avisa sobre a necessidade de ajuste no relógio, em função do horário de verão e, com muita calma, diz que aquela será a sua última transmissão, e que foi um prazer ter apresentado notícias pelos últimos vinte e sete anos.

Esses personagens me chamaram a atenção por serem, talvez, a representação da real liberdade em meio ao caos do fim do mundo deste filme. Real liberdade que só é possível ser vivida quando trazemos Presença e Verdade para as escolhas de nossas vidas. No caso deles, o fim do mundo vira algo pequeno perto de suas consistente existências.

O conceito do “fim do mundo” talvez seja algo parecido com outro conceito aparentemente distante, que é “ganhar na loteria”. Os dois nos trazem um impacto de um cenário extremo onde, finalmente, seria possível viver aquilo que é verdadeiro e essencial para nós. Mas se a gente não consegue encontrar e manifestar essa essência que carregamos conosco agora, neste exato momento, porque será que isso seria possível em outro cenário? Me parece que a urgência do fim do mundo e a potencial distração de uma fortuna material tornaria este simples viver verdadeiro ainda mais complicado para quem o rejeita hoje.

A gente geralmente “se perde” do que somos quando tentamos ser alguém diferente do que é natural e espontâneo em nós, e que só pode ser acessado quando estamos presente. Quando não vivemos esse presente, manifestando nossa natureza essencial, passamos a criar o futuro como uma fantasia que em algum outro lugar e momento nós finalmente seremos felizes. Não nos damos conta que essa é uma solução vazia pois, se a nossa felicidade está sempre no futuro, a satisfação do presente passa a ser sempre a de um futuro melhor, e não de um agora melhor. Assim, nessa ausência da realidade presente, em prol de um futuro que nem sabemos como surgiu em nós, vamos aceitando ser e viver distante de nossas versões mais simples, naturais, leves e espontâneas possíveis.

É no mínimo curioso perceber que essas escolhas em cima de projeções futuras geralmente são justificadas em cima de necessidades que soam muito mais como o desejo de que se tenha, sob controle, soluções para todos os tipos de problemas que possam existir nesse futuro. É como se “vender o presente” garantisse alguma coisa lá na frente. Mas será que existe algum ser humano que viva uma vida sem passar por qualquer dificuldade, problema e/ou desafio? O que acontece, nesses casos, é simplesmente uma troca de problemas: ao invés de enfrentarmos os desafios inerentes a um caminho que faz sentido para nós, escolhemos deixá-los em “banho Maria” para lidarmos com problemas que só ameaçam aquela imagem do que estamos tentando ser, de um ideal inalcançável, por ser sempre jogado para um outro futuro.

Esse modo de viver é um potente gerador de tensões no corpo e, ao invés de direcionarmos as nossas forças para começarmos a tirar os excessos, os pesos que estamos carregando sem necessidade, a gente passa a buscar aprender a viver com as tensões do dia-a-dia de uma forma harmônica, por mais paradoxal que isso seja! A tensão não existe para que aprendamos a viver com ela. Ela existe para nos avisar que talvez o caminho escolhido não seja o mais apropriado para nós. A tensão, inerente à toda ação ansiosa, é o limite do esforço e denota falta de entrega e confiança, comum em quem tenta controlar a vida. Ou seja, toda tensão nasce de uma insegurança e, por isso, resulta em ações medrosas. Torcemos para que tudo sempre “de certo”, mas ao mesmo tempo nos mantemos atentos e, de certa forma, à espera daquilo que nos ameaça. A prova maior de que o nosso medo seguia conosco, sustentando nossas tensões, mesmo quando as coisas “deram certo”, está presente nos momentos em que falamos: “ainda bem que foi assim” ou “ainda bem que aquilo não aconteceu”.

Sustentar e alimentar o que não somos talvez seja a maior prisão que possa ser experimentada por nós, principalmente por ser algo voluntário.

Até este momento, nessa viagem que estou fazendo, passei por alguns países da Europa e Ásia. Visitei castelos, palácios e fortes que, em comum, trazem uma história de opressão ao “seu” respectivo povo. Na maioria das vezes, as pessoas eram como propriedades dos impérios e reinados. Algumas vezes fiquei imaginando alguém se percebendo infeliz por viver aquela realidade e querendo fazer valer a sua liberdade. Se esse alguém não concordasse com uma ordem e não quisesse cumpri-la, ou essa pessoa fazia um bom plano de fuga, ou ela seria presa e/ou morta. Se fugisse e fosse pega, provavelmente seria morta. Hoje, sem o radicalismo do poder sobre o outro no seu estado bruto, quando podemos desfrutar das nossas próprias escolhas para vivermos de forma livre, a partir do que somos verdadeiramente, muitas vezes não optamos por isso. Não raro escuto de pessoas próximas e daqueles que eu atendo uma frase em comum, com variáveis que não mudam o seu sentido: “não me vejo mais fazendo isso”. Algumas delas realmente encontram a força de seus corações para saltar em direção à si mesmas. Outras parecem seguir fazendo aquilo que já não se veem mais fazendo na espera de uma segurança que ainda não conseguem reconhecer dentro delas próprias.

Atualmente existem muitos cursos, vivências e dinâmicas com o objetivo de auxiliar a encontrar potenciais e um propósito de vida (ou de momento) de quem eventualmente participa deles. Isso pode ser muito bom, principalmente para trazer à tona aquelas informações que nós já sabíamos mas que foram escondidas (por nós mesmos) em algum local interno que nem lembrávamos mais onde era. A gente se emociona, se sente mais forte e mais vivo e parece que tudo fica mais claro. E às vezes é normal buscar a repetição dessas vivências de forma a torná-las uma trilha de escape de um dia-a-dia sem alegria. No entanto, o próximo passo significativo é na direção da liberdade. É preciso deixar ir o que não é para que aquilo que é verdade tenha espaço para surgir.

A inversão dos movimentos, quando há uma obstinação pela busca por propósito, colocando-a antes da realização da liberdade, pode ser ainda um forte indício de que o medo segue dando as ordens. Falta coragem em deixar morrer o que nos prende e bloqueia o contato com as nossas potências. Já queremos transformar a nossa vida, mas ainda mantemos um pé atrás. Assim, o passo ainda não está completo.

Na realidade, os dois movimentos são válidos e irão nos conduzir ao que já somos em essência. O caminho da liberdade nasce de um espaço de confiança e, para que isso aconteça verdadeiramente, é preciso autoconhecer-se e assim separar o que faz sentindo e o que não faz, com base em nós. O caminho inverso tem sua raiz no medo, o que pode torná-lo mais longo, cansativo e cheio de auto-ilusões.

Como a nossa intenção é criadora de realidade, a ordem interna é uma grande aliada. Por isso, queira primeiro ser livre. Ser livre é algo que está sempre ao nosso alcance. Depois, naturalmente, o que é potência se apresentará de forma cada vez mais consistente, e assim vai ficando mais claro perceber o propósito por trás de cada situação da vida.

E então, gozando da liberdade de ser fiel ao que já se é, nesse encontro de si mesmo, e reconhecendo o presente como a própria eternidade, não há qualquer fim do mundo para ser temido.

Encontrar-Se!

Encontrar-Se!

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Aqui deixo um presente para você!
Em meados de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
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