A fala como terapia da vida (Futuro do Pretérito)

Postado por em 31 ago, 2013 - Textos

Nossa linguagem pode ser um grande veículo no desenvolvimento de uma visão ampla e integrativa da vida e na facilitação do caminho de autoconhecimento. Sem perceber, muitas vezes usamos verbos, termos e expressões que dificultam nossa relação conosco e, consequentemente, em nossos relacionamentos. O texto de hoje abordará o uso do futuro do pretérito.

Eu deveria, eu faria, eu seria, eu queria, etc. O futuro do pretérito é o tempo verbal dos julgamentos de valor, da missão impossível. O uso dele pressupõe que algo que aconteceu foi errado e que podemos voltar para mudar o que já passou para, então, fazer o certo. Será mesmo que isso é possível?

Nessa dinâmica, podemos perceber que o futuro do pretérito possui fortes elementos em sua gênese, que trazem desafios diários para a nossa vida:

> Não aceitação, culpa, cobrança e punição:
Algo já aconteceu, já foi. Isso é um fato. O resultado desse acontecimento, quando não agradável, nos faz querer algo impossível, que é voltar no tempo e fazer diferente. Enquanto a aceitação ao passado não chega, fica impossível estar no presente, que é o único lugar real, onde algo pode efetivamente ser feito. O resultado da não aceitação é exatamente a culpa, por acreditarmos que falhamos. Ela chega e traz auto-cobrança, auto-punição, seguidas da sensação de estagnação. Quando permitimos que ela se acomode em nós, somos visitados por sentimentos de impotência e peso. Ficamos confusos, achando que o fluxo da vida parou.

> Passado e futuro:
O que passou já não está mais aqui e, por mais que planejemos, o futuro é uma tela em branco, completamente imprevisível. Quando visitamos esses tempos, tiramos a atenção e nosso poder de criação do agora. Geralmente projetamos nossas memórias do passado no futuro, tentando controlar a vida de forma que os momentos felizes se repitam e as dores nunca mais apareçam. Nesse movimento, nos fechamos ao novo, à beleza da vida que se faz no presente, exatamente do jeito que se apresenta para nós.

Além disso, o uso do futuro do pretérito e todos os seus “rias” é uma grande injustiça que fazemos conosco. A maturidade do presente se faz com a construção de tudo que passou, exatamente do jeito que aconteceu. Quando falamos como se fosse possível ser, fazer ou querer algo diferente do que se foi, se fez e/ou se quis, deixamos de honrar esse mestre da nossa formação, que é o passado. Quando somos capazes de encontrar em nós a gratidão por tudo que vivemos, nossa capacidade de amar e criar está pronta para servir ao presente.

O ajuste na linguagem, a partir de aceitação, da honra e da gratidão ao passado, além de nos conectar com o agora, começa a nos trazer uma outra qualidade nas relações. O olhar que julga o passado e quer muda-lo é o mesmo que julga e quer mudar o outro. Então podemos encontrar o dom do amor incondicional (quase uma redundância, já que todo amor em essência é incondicional), do amor verdadeiro, livre, desinteressado, que só tem a oferecer e nada quer em troca.

Que possamos estar cada vez mais aqui, no presente, onde mora a experiência do viver. Honrando e agradecendo ao passado. Com o coração completamente aberto a tudo que a vida quer nos oferecer.