A intenção que transforma a vida

Postado por em 17 jul, 2015 - Textos

Dia desses fui a casa de um produtor de vinhos no interior da Itália. Este produtor, um senhor de aproximadamente 60 anos, ainda utiliza métodos artesanais, sem o uso de qualquer produto químico no cultivo da uva e na confecção do vinho.

O fato de ter um visitante brasileiro o fez buscar algumas fotos antigas. Ele queria me mostrar fotos de quando Bebeto e Romário foram a sua casa, na época da Copa de 1990 que aconteceu na Itália. Em meio a tantos álbuns, ele me deu um e disse: “essas fotos são do melhor período da minha vida”. Abri o álbum e as fotos que ali estavam registravam momentos de sua vida por volta dos 25 anos.

Dias depois, lembrando deste ocorrido, me veio a memória uma fala do meu pai quando eu estava para completar 20 anos: “filho, aproveita essa fase. Entre 20 e 25 anos eu vivi o melhor momento da minha vida”. Depois de ouvir isso, lembro que após passar os 25 anos de idade, vivia com uma espécie de ameaça ecoando dentro de mim. Como se, a partir daquele momento, minha vida pudesse começar a piorar.

Fiz 26 anos, cheguei aos 30 e semana passada completei 34 anos, sempre com a sensação de que há ainda muita coisa para ser vista e conhecida, cheio de apetite para me reinventar e descobrir o novo. Essa perspectiva me faz realmente sentir que há ainda muito por vir, que há muita vida a ser vivida.

Não acredito que a “melhor fase” do meu pai tenha sido entre os 20 e 25 anos. Isso pode ser apenas uma referência de uma fase de juventude com certa independência, que é tão vendida por aí como um tempo feliz. Depois daquela fala se passaram 14 anos e sei que ele foi muito feliz neste período.

O que vejo em comum entre essas falas é a intenção. Quando escutei o produtor de vinhos italiano falar, fiquei imaginando como deve ser acordar diariamente acreditando que nada pode trazer tanta satisfação como algo que já passou. A intenção que colocamos na nossa vida é uma potente criadora de realidade. Se acreditamos que o melhor já passou, mesmo que na nossa frente existam belos caminhos e oportunidades, o que vemos são apenas as portas fechadas.

Muitas vezes escutei, na sala de terapia, pessoas justificando certas atitudes em função de algo que elas diziam saber que aconteceria se escolhessem fazer o contrário. Por exemplo: uma mulher que prefere não dizer para o marido que, eventualmente, encontra seu ex-namorado nas reuniões de um grupo de amigos. Além desses encontros, ela mantém uma troca de e-mails com ele, onde se atualizam de suas vidas, como fazem habitualmente muitos amigos. Ela diz que não tem necessidade de contar ao seu marido sobre isso, pois ele iria “pirar” se soubesse que ela troca e-mails e eventualmente o encontra, mas também não se sente bem em achar que tem que esconder algo dele.

Esse contato com o ex-namorado, agora amigo, é algo importante para ela. No entanto, ela limita sua liberdade quando sente que não pode ser totalmente verdadeira sobre isso. A intenção que ela coloca é de que o marido não vai lidar bem com a informação, nunca. Em cima desta intenção ela cria a realidade e deixa de investir sua energia na criação de um outro caminho, onde ela se sente mais livre por não ter nada a esconder e ele pode lidar com uma informação que, provavelmente, o desafiaria.

O que achamos que sempre vai acontecer é uma projeção do passado no futuro. Se cremos e agimos achando que tudo será como sempre foi, certamente é assim que se apresentará a realidade.

O fato é que estamos sempre esperando que algo fora de nós mude antes de nós. É muito mais cômodo pensar que o outro “pira” a toa, que o outro é “neurótico”, do que intencionar que sim, o outro possui capacidade de compreensão daquilo que é importante para nós, mesmo que seja algo muito difícil para ele. Neste caminho falsamente mais cômodo, mentimos, omitimos, não fazemos o que queremos e/ou nos fechamos. Enfim, não damos vazão ao que é mais natural em nós.

Não vou entrar aqui nos pormenores do exemplo, de quem está “certo”, de quem está “errado”. Toda situação tem dois lados e cada lado é o resultado de um complexo de experiências. Muitas delas deixam belas lembranças, outras tantas nos traumatizam.

A intenção e a palavra, que comunica o que intencionamos, são criadoras de realidade. Obviamente elas não criam nada sozinhas, mas se acreditamos que há um espaço novo, mais verdadeiro e amoroso do que aquele que estamos habituados a nos relacionar, já temos um promissor ponto de partida.

É sempre possível que todos os dias nos tragam a melhor fase de nossas vidas.

Levitare (foto de Júlia Bertolini)

Levitare (foto de Júlia Bertolini)