Irresponsabilidade e Inconsequência!

Postado por em 10 jul, 2016 - Textos

[Texto escrito no dia 10/07/2016]

Já passou de meia noite aqui em Vientiane, capital do Laos. Hoje eu completo 35 anos de idade. Talvez seja mais verdadeiro dizer que há 35 anos esse corpo nasceu e essa história chamada “Arthur” teve o seu início.

Esse é o segundo aniversário seguido que eu passo fora do Brasil. Já são 1 anos e 2 meses viajando.

Essa semana, quando me lembrei dessa história de aniversário, fui visitado por memórias de exatamente vinte anos atrás. Estava para completar quinze anos e havia pouco mais de dois anos que minha família tinha decidido mudar de vida: fomos morar em Cabo Frio. Meus pais queriam viver numa cidade mais calma e ter mais tempo para estar comigo e com a minha irmã. Eles abriram alguns negócios na cidade nova e lá fomos nós viver aquela aventura.

Perto desse aniversário de quinze anos, ou seja, dois anos após a mudança, os negócios iam muito mal.

As férias do meio do ano se aproximavam e uma empresa de turismo foi à minha escola oferecer aos alunos pacotes de viagens para a Disney. Alguns amigos combinaram de ir e eu era um deles. Nunca tive um sonho de ir pra Disney, mas a viagem em si era o que me atraía. Lembro e até consigo sentir o frio da barriga daquele momento, quando me via indo para um outro país, numa terra desconhecida, algo que nunca havia acontecido até ali. Afinal, em mim já estavam plantadas as sementes de encontros em terras desconhecidas, mas não era ainda a hora de semeá-las.

Depois da visita da empresa de turismo, cheguei em casa e contei da viagem. Falei que os amigos iam e perguntei aos meus pais se eu poderia ir também. Nem cheguei a pedir como presente, mesmo com o encontro das datas da viagem e do meu aniversário. Nunca fui ligado à aniversário, mesmo gostando de celebrações de forma geral. Não sei bem porque. Não tenho nada contra, mas no meu aniversário eu colecionei episódios em que não saí de casa especificamente nesse dia, preferindo a introspecção. Quando mais novo, também acontecia dos meus pais quererem fazer festa e eu só concordava quando a gente acordava de não ter o “Parabéns pra você”. Eles sempre respeitaram. Talvez eu tenha uma certa vergonha misturada com um sentimento da coisa não ser natural e no fundo tudo sempre pareceu não fazer muito sentido.

Mesmo muito mal de grana, meus pais não vetaram a viagem de início. Tenho certeza de que eles tentaram. Fizeram contas, esperaram algum dinheiro novo aparecer, mas, por fim, acho que o momento trouxe mesmo novas dívidas, e eles viram que não ia dar. Me chamaram para conversar e disseram que não poderiam pagar aquela viagem para mim. Não me decepcionei e encarei numa boa, mas, mesmo sem ver, sei que eles sofreram por isso. Acho que no mais profundo de tudo, eles também deviam saber daquelas minhas sementes de encontros em terras desconhecidas, encontros que para nascer precisariam de uma viagem. Queriam prover o propósito, mas, por fim, proveram todo o necessário para que isso fosse realizado no tempo certo.

Comecei esta viagem, que segue seu curso e fluxo, com 33, fiz 34 e agora completo 35 anos. Os encontros chegam como presentes. Cada um deixa novas partes de mim e, numa troca natural, leva novas partes de si. São dos mais variados: de família viajando há 12 anos com filhos nascidos no meio da própria viagem até pessoas que nunca saíram do lugar de onde nasceram, passando por aqueles que decidiram viver no local que ofereceu um encaixe para o profundo pulsar de seus corações. Riquezas de valor inestimável.

Nesse um ano e dois meses, estou viajando em companhia da minha esposa com um orçamento mínimo. Em torno vinte e cinco dólares por dia para duas pessoas comerem, dormirem, se locomoverem e, claro, se divertirem, apesar desse “se divertir” estar incluído em todas as outras coisas. Não chegamos a esse valor com base no dinheiro que tínhamos disponível para viajar ou na experiência de outras pessoas. Simplesmente buscamos o simples, tirando os excessos criados pelas nossas limitações e o orçamento se apresentou para nós. Depois, o desafio foi segui-lo. E é incrível como tudo se encaixa perfeitamente!

Esse baixo orçamento acaba proporcionando grandes coisas pois, no fim das contas, a mágica orçamentária só é possível em função da generosidade de muitos corações que naturalmente cruzam conosco e nos ofertam hospedagem, transporte e por vezes até nos convidam para almoçar ou jantar. Isso nos reforça a certeza de que a própria Vida é mesmo a verdadeira Mestra. Ela sempre dá conta de tudo! Por isso, nada há de faltar aos que caminham para encontrar a Paz.

Por mais que tenhamos saído do Brasil super abertos ao desconhecido, o que vivemos era inalcançável para a mente, mesmo em suas mais criativas projeções.

As vezes, quando eu começo a pensar além da conta, me pego me achando velho demais para uma aventura como essa. Encontro outros mochileiros, dez, quinze anos mais jovens, e isso é combustível para a mente. Também encontro os mais velhos mas, nessas horas, a mente os desconsidera como bons exemplos, porque ela, diariamente, teme essa expansão dos limites para o que lhe é desconhecido e a intensa movimentação para fora das zonas de conforto.

Hoje eu olhei mais profundamente para isso e encontrei duas palavras: irresponsabilidade e inconsequência. Vi que são palavras que estão mais preocupadas com o futuro, um tempo inexistente, do que com o agora. Então ficou fácil integrar e alinhar em mim essa questão: que eu use e abuse dessas palavras para “classificar” esta viagem de encontros. Elas, no fundo, na essência do que trazem, só comunicam verdade: o presente, o aqui e agora, onde não há pensamentos, onde a Vida acontece sem projeções, julgamentos, apegos, aversões, desejos e necessidades. Neste mágico espaço onde mora o fluxo natural.

Meu presente de 35 anos: me reconhecer irresponsável e inconsequente! Me reconhecer Agora, onde a Eternidade se celebra mim.

Irresponsável e Inconsequente. No Amor.

Irresponsável e Inconsequente. No Amor.

———————————————————————————————————————————————————
Aqui deixo um presente especial para você!
Em meados de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
———————————————————————————————————————————————————