O mundo é bom pra caramba, meu irmão!

Postado por em 14 fev, 2016 - Textos

Há pouco mais de uma semana recebi uma mensagem de um grande amigo, um irmão de vida. Eu estava em Istambul, na Turquia, me preparando para ir para a Índia. Ele me escreveu perguntando sobre a escolha do meu local para ficar, pois em menos de um mês ele também embarcará para a Índia e me dizia estar um pouco preocupado por sentir-se atrasado na definição da sua hospedagem.

Ao invés de responde-lo por mensagem escrita, resolvi ligar, usando a internet. Isso só estava sendo possível pois a pessoa que nos hospedou em Istambul nos emprestou seu modem wi-fi móvel. Liguei para o meu amigo e, de repente, de coração aberto, me peguei dizendo: “fica tranquilo, irmãozinho, esse mundo é muito bom e tudo vai dar certo, você vai ver”. Eu, que tenho o costume de  manter o “pé atrás” da precaução naquilo que vivo, me espantei com o que acabara de dizer.

Essa frase seguiu ecoando dentro de mim pelos dias seguintes. Isso me levou a um flashback dos vários momentos especiais que vivi nos últimos meses, sempre com a bondade do mundo ali, me saudando.

Para quem não leu os últimos textos vale dizer que eu estou, juntamente com a minha esposa, há quase um ano viajando “por aí”, tentando escutar os convites da vida para ir de encontro a eles. Em todo esse período, posso contar nos dedos de uma mão as vezes em que pagamos hospedagem, pois tivemos sempre alguém para nos receber em sua casa. Algumas vezes, nossos anfitriões fizeram questão de que ficássemos em seus próprios quartos, ocupando suas camas, enquanto eles foram dormir no sofá. Já fomos pagar conta em bar quando a mesma já havia sido paga, pegamos algumas caronas e almoçamos e jantamos com honras de convidados especiais. Se antes de sair do Brasil havia alguma atenção ao momento em que teríamos que comprar roupas para passar o frio do inverno europeu confortavelmente, ela se dissipou quando recebemos de presente tudo aquilo que precisávamos para nos aquecer. Até uma casa inteira, com carro na garagem, por quase um mês, nos ofereceram emprestado. E nós aceitamos!

Enfim, eu poderia escrever um livro com todos os momentos em que o mundo mostrou a sua bondade conosco que, certamente, ainda ficariam faltando histórias para contar. Reviver isso me faz agradecer imensamente, pois por trás de cada gesto pudemos ter contato com a essência do que faz o mundo ser bom: o amor. E isso tem um valor que não se pode mensurar, que nenhum dinheiro pode comprar.

Ainda na interação com a frase dita ao meu amigo, “esse mundo é muito bom”, me questionei e, automaticamente, lancei perguntas para o espaço: “mas e quando a coisa complica? E quando vem aquele momento adverso e desafiador? Ainda assim o mundo é bom? Onde está a bondade do mundo nesses momentos?”.

A resposta teórica veio na hora, com a clareza da percepção que a adversidade e o desafio são também ofertas desse mundo que é bom. Momentos assim são oportunidades para nos conectarmos com a fé, com a força interna, e lembrarmos da luz que nos amplia além dos nossos medos. Isso também é uma manifestação de amor. Quando o mundo parece não ser bom, é só a nossa forma de receber o que ele nos dá que está desajustada. Ele está nos ofertando presentes para nos ver crescer, pois já sabe que temos a capacidade de superação da adversidade. Mas quando escolhemos reclamar, é porque estamos vendo esses mesmos presentes como pedras lançadas contra nós, nos identificando com um possível ataque que só existe dentro de nós.

Saímos de Istambul e chegamos na Índia para viver na prática este desafio. As diferenças, em vários aspectos, nos pegou de surpresa. A bondade do mundo seguia ali, mas, por dois dias, eu só conseguia ver as pedras contra mim. Parece que este país tem realmente uma grande capacidade em fazer saltar aos olhos aquilo que nós evitamos ver. Em dois dias, foram inúmeros os momentos em que, de alguma forma, me senti ameaçado pelos meus medos. Nessas horas a gente normalmente esquece que o mundo é bom e passa a se distanciar dele. “Sou eu aqui e aquilo que não me agrada, que eu não esperava e me incomoda, lá. Não tem nada a ver comigo”.

Essa é a hora de voltar “para casa”, para dentro, para o coração, porque a adversidade e o desafio são momentos férteis, portais que se abrem para que possamos nos ver ainda mais inteiramente. É o momento ideal para deixar que aquilo que achamos ser, a mentira idealizada que criamos sobre nós, caia por terra. Com a visão clara e o coração aberto, é possível aceitar e reintegrar o que é verdade, mas que antes nos incomodava, e por isso só víamos fora de nós. Assim, amamos o mundo de volta, sendo bom com ele em resposta. Nossa evolução naturalmente o presenteia.

Nós passamos a primeira noite na Índia dentro de um trem-leito muito simples, no caminho de Deli para Rishikesh. Chegando no trem, fui falar com um senhor para confirmar se estávamos no trem certo. Ele confirmou. E perguntou: “onde vocês vão descer?”.  Nós respondemos. E então ele nos disse: “vocês precisam estar atento à hora, porque a estação de vocês não é o ponto final deste trem. Ele chegará na estação de vocês às 4h da manhã, por isso coloquem um despertador”. Enquanto agradecíamos pela informação cuidadosa, ele nos perguntou carinhosamente: “vocês querem que eu coloque o despertador para vocês?”. Nós agradecemos, mas dissemos que não precisava, pois nós poderíamos colocar o nosso despertador e assim ele não precisaria acordar antes do tempo, já que seguiria viagem no trem.

Às 3h30min da manhã nós nos levantamos e, enquanto arrumávamos nossas coisas para em seguida descermos do trem, olhei para o senhor. Ele tinha acordado. Na sua cama, olhou para o relógio e depois para as nossas camas, para checar se já havíamos acordado. Recebi uma cachoeira de amor naquele gesto simples.

Fui certeiro ao falar com o meu amigo, e também comigo.
Pode vir tranquilo, na sua força e com o coração aberto.
Vem que o mundo é bom pra caramba, meu irmão!

Degustando a Vida (foto de Júlia Bertolini)

Degustando a Vida (foto de Júlia Bertolini)

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