Negação: o Você que você não quer ver

Postado por em 1 mar, 2016 - Textos
Oração (Foto de Arthur Belino)

Oração (Foto de Arthur Belino)

No final do ano passado, enquanto conversava com um amigo sobre os desafios do desenvolvimento sustentável, ele lembrou-se e me contou uma história que tinha lido em um livro sobre o assunto. Era sobre duas comunidades que, mesmo em meio aos movimentos da economia e do consumo globalizados, viviam isoladas em montanhas de difícil acesso na Grécia.

Uma dessas comunidades resolveu se abrir para o mundo e passou a investir na construção de estradas, facilitando assim o transito para a entrada e saída de lá. A outra comunidade seguiu apostando que seria melhor se manter isolada, de forma autossustentável e independentemente de outras relações. Depois de um tempo, a comunidade que resolveu se abrir passou a ter que lidar, entre outros desafios, com a chegada de produtos industrializados, o acúmulo de um lixo muito mais difícil de ser gerido (principalmente em função de embalagens plásticas) e com a saída dos jovens adultos que, a partir de novos estímulos, passaram a escolher provar e tentar a vida fora dali, em cidades maiores.

Qual das duas comunidades “acertou”?

A história do livro não explorava os desafios da comunidade que seguiu “fechada”. Seu objetivo era comunicar os rápidos impactos do consumo insustentável. Concordo que esses impactos são devastadores para a natureza e a qualidade de vida da própria vida, mas será que esse olhar, que enfatiza uma certa culpa do sistema, nos colocando como vítimas indefesas do mesmo, não nos mantém como reféns de uma verdade ilusória?

Escrevo este texto aqui de Dharamsala, no norte da Índia, cidade essa que serve de exílio para os tibetanos. Para quem não sabe, em 1949 o Tibete foi invadido pela China, escrevendo assim mais uma história sangrenta da humanidade. Antes da invasão, o Tibete vivia isolado. O “telhado do mundo”, com suas altas montanhas que alcançam as nuvens, era um país grande. Sua área, tão grande quanto a Europa Ocidental, hoje é oficialmente parte da China.

O Tibete não fazia questão de se relacionar com o mundo. Vivia numa espécie de “paraíso fechado”, sem precisar de mais ninguém. Mesmo as joias desta civilização, como as práticas e aprendizados do Budismo Tibetano, eram restritas a eles, que, do alto de suas cidades, olhavam pro resto do mundo como se tivessem encontrado o caminho da felicidade humana, da verdade absoluta. Mas isso era só para eles, já que não era dividido com mais ninguém.

Mas esse paraíso não era tão perfeito assim, já que o Tibete contava com um amplo sistema feudal, casos de escravidão, crescente pobreza e, inclusive, corrupção entre monges que circulavam no governo tibetano. O próprio Dalai Lama sabia dos desafios e do trabalho que deveria desenvolver para lidar com tudo isso, e se preparava olhando nesta direção.

Quando a China incluiu o Tibete nos planos do socialismo ditatorial e iniciou o que chamou de “Revolução Cultural”, o “telhado do mundo” foi invadido por milhares de soldados e um armamento pesado. O objetivo de Mao Tse Tung, o ditador chinês, era vestir o Tibete de vermelho, extinguindo aquela cultura, e se apropriar das riquezas naturais do país. Milhares de tibetanos foram mortos e mais de seis mil templos destruídos durante a ocupação chinesa.

Em meio a esse período o governo tibetano resolveu pedir ajuda a outros países. Mas porque algum país iria “comprar a briga” daqueles que nunca quiseram muito falar com ninguém, e entrar numa guerra contra a poderosa China? Havia muito a perder e ninguém quis ajudar o Tibete no confronto com os chineses. A própria Índia negou o exílio do Tibete em seu território antes de finalmente aceitá-lo, muito pela pressão do povo indiano em cima de seu governo.

Depois disso, o Tibete acabou se abrindo à força. Hoje, exilado aqui na região de Dharamsala, no norte da Índia, o povo tibetano passou se relacionar com um novo mundo. Essa abertura os colocou em contato com o desenvolvimento insustentável em que vivemos. Hoje, é curioso ver os monges com seus smatphones (fabricados na China), usando tênis modernos e bonés de conhecidas marcas internacionais, compondo o visual com a túnica púrpura e o cabelo raspado. Os monges são piores ou menos sagrados por isso? Claro que não! Culpa do sistema? Eu não vejo assim.

Exemplos similares aconteceram em civilizações como os Incas e os nativos norte e sul americanos. Suas culturas foram arrasadas pela colonização europeia, mas, antes disso, eles também se “arrasavam” entre si, nas disputas entre diferentes tribos. Hoje também é bem comum observar o “desenvolvimento” dentro de muitas tribos remanescentes, com o consumo de produtos industrializados das grandes corporações do mundo.

Vejo um certo romantismo em acharmos que possuímos uma tal pureza, e que esta é atravessada por alguém ou alguma coisa que nos corrompe. A partir desta limitada visão, usamos tempo e energia nessa antiga dinâmica que nasce da guerra entre o bonzinho e o malvado, entre o certo e o errado, entre a vítima e o agressor. Se fossemos realmente puros e igualmente íntegros, seriamos tão vulneráveis e influenciáveis assim? E quando percebemos que insistimos em escolher algo que não é bom para nós, quando temos essa informação consciente e seguimos optando pelo “erro”? Também é culpa do sistema?

Por trás desse mundo aparentemente prático, onde os julgamentos correm soltos em todas as direções, com o objetivo de encontrar culpados por aí, há uma dança energética que é impossível de ser compreendida pela nossa mente. Situações e pessoas se atraem além da nossa tentativa de controle, e a incapacidade de aceitação destas, que seria o ponto de partida de uma relação completamente diferente, presente e verdadeira, nos faz vê-las apenas acontecendo fora de nós, principalmente quando não são do nosso agrado e nos incomodam diretamente, por estarem relacionadas a algo que nos interessa. Nossos julgamentos acabam tomando uma direção que tem muito mais a ver com a ideia que temos de nós mesmos, com a imagem que o nosso ego insiste em criar e alimentar, do que propriamente com a verdadeira justiça da alma.

Nesta dinâmica da separação, onde vemos as pessoas e situações como partes separadas de nós, aprendemos e insistimos em negar o que não nos agrada, o que nos surpreende e nos desafia, o que nos tira da posição preguiçosa criada pelas nossas “confortáveis” distrações. Facilmente passamos a criar sonhos e ilusões baseadas no desespero de não se ter mais nenhum problema para enfrentar. É o nosso ego, nossa mente em separação, tentando fugir de tudo aquilo que é desconhecido e tem relação com uma memória de dificuldade ou dor.

Toda negação é uma prova da identificação com o que negamos. Enquanto uma parte de nós está tentando aparecer aos nossos olhos, a partir da expressão da nossa própria consciência, fazemos esforços para não aceitá-la. Estimular auto fechamento para o sistema, as pessoas ou situações como os culpados do calvário em nossas vidas só nos faz reforçar as ilusórias barreiras que nos separam, o que segue gerando sofrimento em nossas vidas.

Lembro de muitas vezes ouvir pessoas saindo ou planejando sair de grandes cidades para ir morar no interior, “na natureza”, porque “não aguentam mais a cidade grande”. Seus movimentos partem do “não”, muito mais da negação a um lugar do que ao que o novo local tem a oferecer. São escolhas da mente. Algumas retornam, pois não conseguem criar formas de se manter “na natureza” ou porque sentem dificuldades de se adaptar, já que a realidade é sempre muito diferente do que as expectativas criadas pela mesma mente que fez a escolha. Outras seguem por lá, mas enquanto insistirem em ver um lugar como “melhor” do que o outro, como um caminho mais puro ou verdadeiro frente aos demais possíveis, seguirão sentadas em cima da ilusão da separação, numa competição alimentada pelo ego, negando entrar em contato com aquilo que as desafia, que as faria encontrar o paraíso dentro de si mesmas. Há outros exemplos mais banais: quem já não ouviu falar que o Facebook e as redes sociais em geral são uma perda de tempo, alienação, etc., para em pouco tempo ver o dono da fala postando diariamente novidades em seu perfil ativo? Culpa de alguém?

É importante caminharmos na direção daquilo que amamos, mas só conseguimos avançar nessa estrada do amor se seguimos com os olhos abertos para o que o ego, em separação do todo, nega. Quando a gente se abre para ver e interagir com aquilo que temos por hábito negar, estimulamos em nós a força e a habilidade que é capaz de lidar com os desafios da vida.

Tenzin Gyatso, o décimo quarto Dalai Lama, em seus oitenta anos de vida nesta encarnação, nunca proferiu uma só palavra contra a China ou os chineses. Como um ser iluminado, ele sabe que ele, a China, o Tibete, os chineses, os tibetanos, eu e você somos apenas parte da mesma unidade, do mesmo Deus, da mesma vida. Ele também sofre e sente dor, enfrenta desafios e dificuldades, mas, ao invés de negá-las, mantém o coração aberto para dialogar com o que a vida lhe apresenta, a partir do amor e da união. Ele sabe que esse amor à liberdade, inerente ao ser humano, acaba sempre por se impor, por isso acredita que o controle do Tibete pela China é apenas questão de tempo, pois os chineses não viverão eternamente desprovidos dessa amorosa liberdade. Por isso, confiou a seus companheiros de exílio a missão de proteger a alma do Tibete, na esperança de um dia voltar ao seu país.

Ainda segundo o Dalai Lama, somente uma ciência totalmente desinteressada, sem negações, pode se tornar sabedoria. A sabedoria abraça tanto o conhecimento quanto a ignorância, a felicidade e a infelicidade dos seres. É fruto da experiência individual com base no amor e na compaixão, da certeza de que tudo, absolutamente tudo, está a serviço do desenvolvimento espiritual. Essa é a sua fé. E a minha também.

Por fim, mais uma inspiração, escrita no preâmbulo do ato constitutivo da UNESCO: “Se as guerras nascem no espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser erguidos os baluartes da paz”.

Espelho (Foto de Júlia Bertolini)

Espelho (Foto de Júlia Bertolini)

Se quiser saber um pouco mais sobre a história do Tibete e a sabedoria do Budismo Tibetano, indico os seguintes livros:
- As Montanhas de Buda (Javier Moro)
- O Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Sogyal Rinpoche)

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Aqui deixo um presente para você!
No meio de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
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