O Outro

Postado por em 26 abr, 2016 - Textos
Night and Day (Foto de Dan Newton)

Night and Day (Foto de Dan Newton)

Em 2011 eu tomei uma decisão que viria a se mostrar extremamente transformadora para mim: fiz uma especialização em Design para Sustentabilidade num curso chamado Educação Gaia. Essa formação oferece um conhecimento sistematizado a partir de aprendizados de algumas Ecovilas ao redor do mundo. Muito mais do que um grupo de pessoas pensando apenas em soluções “verdes”, essas Ecovilas são experiências na tentativa de criar uma forma realmente sustentável de se viver em sociedade. Depois de muitos anos de prática dentro desses “laboratórios reais”, foi criado o Educação Gaia, que basicamente se propõe a transmitir tal conhecimento em quatro módulos, elaborados a partir de quatro visões complementares da sustentabilidade. Esses módulos são: Social, Econômico, Ecológico e Visão de Mundo (ou Espiritualidade).

Hoje me peguei pensando em como é acertada essa escolha de começar o curso pelo Módulo Social. Nossos dias tem escancarado como ainda é extremamente difícil criarmos união e convivermos exaltando a diversidade. Minha reflexão começou depois de algumas leituras do atual momento do Brasil e dessa divisão criada entre aqueles que são contra e a favor do Impeachment da Dilma.

No dia seguinte à votação na Câmara, entrei no Facebook e, além de um mar de calorosas (e muitas vezes violentas) discussões, vi pessoas escrevendo sobre não ser mais amigo daqueles “do outro lado”. Muitos divulgando como fazer para saber quem dos seus “amigos” gosta daquele algoz que falou um monte de bobagens, se aproveitando de tal tecnologia para “fazer uma limpa” na lista de “amigos”. Seria maravilhoso se essa coisa de deixar de ser amigo fosse como acontece na infância, quando as crianças param de falar com o amigo mas, no dia seguinte, já estã brincando junto novamente. Mas a vontade egoíca de envergar uma posição, de propor qualquer solução ou regra, de “lutar” pelo país, entre outros infantis argumentos, fazem da ilusão uma tentação, e então tudo fica sério e fechado demais. Não há qualquer escuta entre egos que querem ganhar um do outro. Nesses casos, pouco importa o tema: hoje fala-se do processo de Impeachment, amanhã serão outros tantos para aqueles que seguirem optando por se moldar em discursos.

O Facebook é apenas uma rede social, vale lembrar. Ninguém é só aquilo que mostra, mesmo em presença, pois, na verdade, a gente ainda não sabe direito nem quem somos. Quando estamos falando de perfis interagindo uns com os outros, isso fica ainda mais claro. Fala-se muito em inclusão, aceitação, paz, compaixão, harmonia e outros lindos valores, mas nem no Facebook a gente resiste a essa tendência alopática, tão usada na medicina convencional: se eu tenho dor, tomo um remédio para dor e passa; se tem alguma coisa que não está bem, corta essa coisa e pronto, está resolvido. Mas não é assim tão simples. Para cultivar valores de união, precisamos de equilíbrio entre a visão que vê as partes separadas e aquela holística, que enxerga o Todo.

Fomos educados a partir de uma falácia que nos disse que um dia tudo será como nós queremos, que vamos chegar a um momento ou lugar que será o nosso paraíso, onde não teremos mais que lidar com problemas ou incômodos. E alimentamos essa introjeção com diversos pensamentos e atitudes. A verdade é que tal momento e lugar nunca chegarão, pelo menos não nesses termos. O que classificamos por problemas, desafios ou incômodos tem uma função na vida de cada um. Não querer vê-los, escutá-los e dialogar buscando integração, só os faz crescer para nos encontrar em algum momento seguinte. Parte do paraíso talvez passe por nos conhecermos através do que é tão veementemente negado. Não há dúvida que para cada negação emocionada há uma identificação. Um exemplo: não seria uma atitude aparentemente ditatorial essa de “fazer uma limpa” na lista de amigos e segregar aqueles que “curtem” o tal que é acusado de ser um ditador?

O outro vive para nos servir, por “melhor” ou “pior” que seja. Ele está e sempre estará por perto, energeticamente “contratado” por nós para que possamos caminhar no sentido da nossa verdade e, em última instância, a fim de que nos libertemos do sofrimento da separação. Ainda assim, é muito normal usarmos o outro para validarmos o desamor, a desarmonia e o sofrimento que nós escolhemos viver. Criamos rótulos que facilitam acusação e culpa (“o outro é isso porque fez aquilo ou porque pensa aquilo outro”), o que só nos fecha ainda mais nesse mundo menor e nos tira a possibilidade de perceber o real espaço de união, harmonia e interdependência em que vivemos. Acusar o outro é uma falta de coragem de auto aceitar-se. Quando “apontamos o dedo” nos damos o doloroso direito de sentar numa cadeira de arrogância, onde o acusador é sempre melhor do que o acusado, além de, na maioria das vezes, também nos sentirmos uma vítima deste.

A palavra inteligência nos traz o significado da capacidade de ler nas entrelinhas. Para usarmos a inteligência em nossas relações, é fundamental receber e escutar o outro. Quando conseguimos isso, podemos ir além do que está sendo dito para sentir o outro e, consequentemente, a partir de uma intenção integrativa, conhecer melhor a parte de nós que aquela relação faz vir à tona. O grande problema é que estamos habituados a falar muito e, por isso, pouco escutamos. Abrir a escuta para o outro é uma forma de validá-lo naquilo que ele é, mas geralmente estamos dedicados apenas em validar o que queremos ser e o que nos interessa, pouco importando o que o outro é ou nos traz. No nível de uma discussão acalorada, isso tende a ficar ainda mais forte.

Um dos méritos do Módulo Social do Educação Gaia é, logo no início do curso, mergulhar em dinâmicas práticas que oferecem uma oportunidade de sentir essa interdependência da vida, de ir além das as facetas do ego até um espaço em que é possível experienciar a real unidade a qual somos parte. Cito aqui um belo trecho do livro O Espectro da Consciência, de Ken Wilber, que ilustra essa real inter-relação da vida:

“Subsiste o fato que as coisas constituem uma relação inseparável de unidade-na-diversidade e diversidade-na-unidade, pela razão expressa de que uma coisa nunca poderia ser manifesta sem a outra, exatamente como não pode existir um convexo sem um côncavo, contornos internos sem contornos externos, um comprador sem um vendedor, um superior sem um inferior, um interior sem um exterior.”

União é diferente de uniformização e, portanto, a diversidade é para ser celebrada. Se existissem duas coisas iguais no universo, uma delas fatalmente perderia sua utilidade. A Vida nos ensina: uma coisa não pode e nem deve ser igual a outra. Quando essa sabedoria é revelada no nível do coração, a gente para de desperdiçar energia no que é desamor: brigas, convencimentos, jogos de poder e manipulações. Também paramos de tentar nos adaptar ao que não nos soa como nosso. Então é possível nascer um Novo espaço de ordem na união do que é diverso, e aí já é Amor.

A União é uma realidade, uma verdade. E mesmo este nível de consciência que estamos vibrando hoje, onde ainda investimos energia na desarmonia e alimentamos o que é ilusório, certamente também viverá e celebrará a União, pois isso é um desejo da própria Vida.

É esta clareza do coração que faz exalar o perfume da perfeição, para onde quer os olhos vejam.

Man and Swans (Foto de Marcin Ryczek)

Man and Swans (Foto de Marcin Ryczek)

“Eu sou só um você que você não quis
E querer é coisa tão pequena
Que eu não sou você por um triz”
(Marcelo Camelo)

———————————————————————————————————————————————————
Aqui deixo um presente para você!
Há um ano atrás eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
———————————————————————————————————————————————————