“E depois?” – As perguntas sobre a viagem

Postado por em 18 jan, 2016 - Textos

Para quem não leu os últimos textos daqui do site, vale uma explicação prévia. Eu estou, junto com a minha esposa, em meio a uma viagem de fluxo: sem muito planejamento, simplesmente aberto para aceitar os convites da vida e ir ao encontro daquilo que está vindo ao meu encontro.

Durante este período fizemos muitas amizades especiais. Uma delas, Marina, nos emprestou sua casa para um período de descanso, antes de seguirmos para as próximas etapas de nossa viagem. No início de janeiro deste ano ela partiu para suas merecidas férias nas praias do Sri Lanka e nós ficamos aqui, neste belo espaço no norte da Itália, desfrutando de dias de paz, sem “ter que” nada, abrindo mais espaço para dormir, fazer yoga, silenciar, cozinhar e amar.

Sua casa funciona também como um Bed and Breakfast, recebendo pessoas que se hospedam aqui durante todo o ano. Antes de partir, ela comentou conosco sobre alguns hóspedes especiais e pediu que nós os recebêssemos, o que concordamos prontamente.

Hoje de manhã preparamos o café da manhã para o Danilo, um desses hóspedes de Marina. Ele, que não faz qualquer cerimônia em ser servido, mesmo com a mesa de café da manhã já preparada, escolheu fazer seu desjejum na cozinha, conversando conosco.

Algo que percebemos em algumas conversas, quando alguém começa a nos conhecer um pouco melhor, é um certo estranhamento e desconforto do nosso interlocutor ao nos fazer perguntas relacionadas à viagem. As mais comuns são: “quanto tempo vocês vão ficar viajando?”, “quando voltam ao Brasil?”, “quanto tempo vão ficar nesse lugar?”, “e depois?”. São sempre questões relacionadas ao futuro, que fazem aparecer nas entrelinhas várias necessidades pessoais daqueles que nos fazem as perguntas. E, ao lidarmos com perguntas como essas, também temos dificuldade de respondê-las, pois para nós é muito novo esse estar presente sem definir os passos que não podemos ver e aceitar construir o futuro em resposta ao diálogo que a vida abre conosco.

Na conversa desta manhã que tivemos com Danilo não foi diferente. Depois de passearmos por algumas de suas perguntas, ele fez uma última, perguntando se não estávamos um pouco entediados por estarmos aqui na casa da Marina “sem fazer nada”. Dissemos a ele que, muito pelo contrário, esses dias aqui estão sendo um grande presente, pois, depois de 8 meses viajando, estamos a sós, nos cuidando e descansando. E então ele disse: “eu não posso ter um tempo assim”. E iniciou um breve monólogo que também é muito comum depois que tentamos responder as perguntas sobre o “futuro” da viagem: o outro começa a justificar o porque de não estar fazendo algo parecido, mesmo que não tenhamos levantado qualquer questionamento sobre o assunto.

Enquanto ele falava que a vida é dura, pelo trabalho, ex-mulher e mulher atual, filhos, etc., seu tom nos trouxe a impressão de algo que é bem comum em justificativas: ele não acreditava realmente naquilo que dizia para nós. Parecia que repetia um discurso pronto e endossava a opção de deixar tudo do jeito que está, como o querer acreditar numa mentira que é contada muitas vezes. Suas palavras o colocavam como um refém de um monte de coisas que fazem com que ele não seja o dono do seu tempo. É como se ele estivesse chegado até ali obrigado e, por isso, ele não tem como sair sozinho. Ele seguia falando, justificando para si mesmo algo que seu coração não é capaz de acreditar.

Me lembrei do intenso período de minha vida, em que deixei o trabalho dentro de grandes empresas para atuar no caminho da minha vocação, como Terapeuta do Ser, aproximando os indivisíveis universos Pessoal e Profissional (que só aparentam se dividir quando trabalhamos sem sermos fiéis aos nossos talentos e interesses).

Um ano após a minha transição, tudo fluía perfeitamente. Quando encontrava alguns amigos que conheci nas empresas em que eu trabalhei, eles perguntavam como estava a minha vida e o trabalho depois daquela mudança, celebravam comigo o meu feliz sentimento de realização e, depois de elogiarem a minha coragem, era comum trazerem argumentos do tipo “pra mim é mais difícil fazer algo assim”, acompanhado das mais diversas justificativas: filho(s), companheiro(a) desempregado, apartamento para quitar, a espera por juntar mais dinheiro que lhe de segurança de fazer uma mudança, etc.

Não acho que eu seja mais ou menos especial ou capaz do que alguém, que tenha menos ou mais problemas, menos ou mais facilidade de “largar tudo” para me dedicar ao que eu amo e tem significado para mim. Cada um tem a sua particular medida de luz e sombra, mas certamente se há muita sombra, há também muita potencia energética de luz para a auto realização.

Um dos momentos mais significativos da minha vida foi perceber que a insatisfação com o meu trabalho e o impacto dele nos meus dias era fruto exclusivamente de um conjunto de escolhas que eu fiz. Ninguém me colocou ali à força. E, se eu era capaz de fazer escolhas que resultavam na minha insatisfação, eu certamente haveria de ter ainda mais potência para direcionar as decisões no sentido da minha realização. Esse foi o ponto onde eu decidi trocar a visão de refém e de vítima pela de criador de realidade.

Se estamos tentando acreditar em uma mentira ao nos justificarmos, trata-se de um real sinal de que há uma verdade que já fala conosco. Nós é que estamos escolhendo, além de não ouví-la, falar por cima dela. Mas o que é verdade em nós não faz força. A verdade não grita conosco. Mas ela também não cessa de falar. Basta silenciar um pouco que passamos a escutá-la de forma clara. Depois, o que nos resta é o ato de ceder, que é quando enfim iniciamos a sua prática.

Nós, nesta viagem, seguimos no exercício de ampliar as definições que carregamos e que por vezes nos limitam. Pierre Wiel, um belo exemplo de Terapeuta do Ser, dizia que nós vivemos uma crise de definições, pois temos muita preocupação em definir tudo. Ele sugeria que o caminho de cura desta crise seria o seu oposto, o “infinir”, em alusão ao infinito e ao incomensurável universo de possibilidades existentes em nossa relação com o mundo, e que muitas vezes são desconsideradas por nós.

Por fim, um conselho: se você cruzar com alguém que julgue estar vivendo algo especial, receba-a como uma inspiração e não uma ameaça. Pode ser simplesmente a vida te dizendo: “viu, é possível, você também pode! Coragem! Siga em frente! Eu sempre estarei com você.”

Nós e o Novo

Nós e o Novo

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Aqui deixo um presente para você!
No meio de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
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