A Poesia das Feiras e Mercados Locais

Postado por em 7 jul, 2016 - Textos
Mercado Local em Chiang Mai, na Tailândia

Mercado Local em Chiang Mai, na Tailândia

Eu sou um amante de feiras e mercados locais. Tem uma história interessante que vivi, juntamente com a minha esposa, quando passamos pela Eslovênia e que ilustra bem isso.

Chegamos em uma cidade chamada Škofja Loka, perto da capital Ljubljana, pois ali moravam Neli e Uros, um casal sensacional que nos hospedou por 3 dias. Além da hospedagem, numa linda casa, eles fizeram questão de nos levar para conhecer locais que dificilmente nós pensaríamos em ir sem eles. Um desses locais, um lindíssimo parque chamado Triglav, estava recebendo uma feira local que só acontece uma vez por ano. O local estava cheio de gente, com um ótimo clima de celebração! Mas Neli, que queria mostrar o parque vazio e sua impressionante beleza natural pra gente, ficou desapontada ao ver aquela gente toda. Ela disse: “que azar o nosso, chegar aqui e ter essa gente toda”. Foi quando eu disse para ela: “Neli, eu simplesmente adoro feiras e mercados locais! Estou me sentindo a pessoa mais sortuda do mundo de estar aqui exatamente no dia da feira”. E perguntei, quase como um pedido: “vamos entrar?”.

Ela concordou e Uros, que não falava muito mas se comunicava naturalmente com gestos e expressões claras, também parecia feliz pelo imprevisto. Era uma feira com diversas comidas locais, cervejas artesanais e um concurso de vacas, que desfilavam junto aos seus donos em trajes típicos da região. Simplesmente sensacional!

Desde que chegamos à Ásia essa experiência de conhecer pessoas e cidades, passando por barraquinhas e estandes de vendas locais, enriqueceu bastante. Parece que por aqui (até agora passamos por Índia, Myanmar, Tailândia e Laos), o mercado local, um pouco parecido com a feira semanal do Brasil, é bem tradicional e acontece todos os dias. Quando queremos comprar frutas, legumes e verduras, por exemplo, não é num supermercado que devemos ir. Supermercados, por aqui, só tem produtos industrializados. Se queremos comprar algo fresco ou mais artesanal, temos que ir ao mercado local, o que é ótimo! Além deles, algumas vezes somos presenteados com feiras que só acontecem em dias específicos e oferecem desde uma grande variedade de pratos locais até massagem. A maior delas que visitamos até agora foi a feira que acontece todo domingo na cidade de Chiang Mai, no norte da Tailândia, chamada Night Market. São vários quarteirões apinhados de barracas e pessoas das mais variadas nacionalidades.

É curioso perceber a diferença na relação com o produto, quando vamos à uma feira ou mercado local e quando vamos à um supermercado no estilo empresa. Na feira/mercado local, o produto aproxima. A pessoa que está vendendo tem intensa relação com o produto: geralmente foi ela mesma quem o produziu ou o cultivou e, quando não é assim, ela certamente tem direta relação com quem o fez. Assim, não somente nós nos interessamos por aquilo que ela vende, como ela também se interessa por como reagimos no contato com seus produtos. A partir de perguntas que fazemos, como por exemplo para saber se uma manga está doce, a resposta vem com conhecimento de causa. E se ainda não nos convencemos, o vendedor(a) geralmente pega uma manga, abre, e nos faz provar, ciente de que as outras estão igualmente doces, simplesmente porque ele(a) sabe de qual árvore a manga veio, quando foi retirada, como foi armazenada e transportada até chegar ali. Quando é uma roupa, a gente bota por cima do corpo pra ver se vai ficar bem e, se eventualmente transparecemos, mesmo que sutil e inconscientemente, alguma dúvida sobre o caimento da peça de roupa no nosso corpo, a vendedor(a)-costureiro(a), que fez a roupa, já chega nos mostrando onde é possível ajustá-la ou vai atrás daquela peça que ela sabe ter feito um centímetro diferente. Também quando ele(a) entende que não tem aquilo que sentiu que estamos procurando, não inventa história e é simples: diz que não tem. É hora de deixar ir para abrir espaço para o próximo chegar. Conosco, clientes-consumidores, é a mesma coisa: quando sentimos que ele(a) não tem uma solução, a gente agradece e segue em frente, porque sabemos que ele(a) entendeu o que queremos (mesmo em outro idioma ou sem falar muito) e não tem o que fazer por nós.

A pessoa da barraca nos sente e nós também a sentimos. E interagir assim é gostoso, porque o que se mostra e o que se sente é igualmente verdadeiro.

Além do mais, os mercados locais e feiras são espaços espontaneamente humanizados, espaços de vulnerabilização. A gente vê os vendedores comendo, tirando um cochilo no fim do expediente, quando o movimento cai e já é quase o fim da feira ou do mercado; tem vendedor que leva o cachorro, outros levam os filhos, maridos ou esposas e esses “detalhes” também são responsáveis por transformar uma relação com potencial de impessoalidade em poesia. E como é gostoso, estando em locais com culturas tão diferentes do Brasil, viajar pela poesia de cada lugar, “me perdendo” e dançando dentro dos mercados e feiras locais por suas frutas, cores, cheiros, modelos, formas, comidas e pessoas.

Nos mercados-empresas o ambiente é totalmente diferente. Os vendedores, uniformizados, não tem qualquer relação com o que está sendo vendido. O que os deixa mais próximos dos produtos é saber onde eles estão localizados dentro da loja. No mais, todo o ambiente é pensado e desenvolvido para a venda. Do lado do mercado-empresa, a venda é o único interesse: tudo se move em torno dela. É difícil falar com o João, que trabalha lá mas está vestido de empresa. A gente geralmente fala com a empresa, mesmo que ela não saiba falar. Dificilmente vemos os trabalhadores ou vendedores, como o João, comendo ou descansando, coisas essas humanas. Na verdade, nem o lugar onde eles comem e descansam fica à vista. Não que a poesia não esteja ali. Ela está em todo lugar. Mas na empresa a poesia veste uma fantasia de outra coisa. Mas se mantemos a poesia no olhar que vê, pura consequência do estar presente, a gente enxerga e se deleita até no mercado-empresa.

A feira da Eslovênia

A feira da Eslovênia

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