É preciso Presença para viver a Índia Sagrada

Postado por em 18 fev, 2016 - Textos
Cerimônia (Foto de Arthur Belino)

Cerimônia (Foto de Arthur Belino)

A Índia pede, a todo tempo, presença, entrega e que se abra mão do controle. Na verdade ela não pede nada disso, mas eu duvido que seja possível sentir-se bem nesta terra sem estes importantes movimentos internos.

A buzina grita sem parar. O ouvido, que não está acostumado, reclama bastante no início. Depois, com presença, entrega e abrindo mão do controle, é possível perceber que os gritos das buzinas em nada tem a ver com o padrão ocidental que estamos habituados a lidar no dia-a-dia das cidades. Não é buzina seguida de briga, de reclamação ou insatisfação com o trânsito. Em grande parte das vezes, a buzina grita sem que haja qualquer motivo aparente, como um carro travando o trânsito ou um pedestre atravessando a rua perigosamente. A buzina parece gritar como diversão, como se fosse a continuação do que as crianças fazem com suas bicicletas: elas pedalam e tocam seus sininhos, numa manifestação de pura alegria. A buzina então é o sininho dos carros na Índia. Não adianta tentar entender o porque. A dica é entrar na diversão e tentar fazer música com elas.

O trânsito é um universo que possui uma riqueza de novos elementos e comportamentos. Viver o trânsito daqui com a cabeça ocidental, ou seja, sem presença, entrega e sem abrir mão do controle, é um show de fortes emoções (e não me refiro a emoções positivas), mesmo se você esteja só assistindo. Imagine, num mesmo cenário, uma rua ou estrada povoada por: pessoas, animais (vacas, macacos e cachorros em sua maioria), bicicletas, motos, tuk-tuks (uma espécie moto com cabine que serve de taxi), carros, caminhões e ônibus. Enquanto os veículos aceleram, as pessoas e animais andam de um lado para o outro, sem que aconteça qualquer acidente! Fica tudo na base do “quase” (uma batida ou atropelamento), mas acaba dando certo, sem vítimas, com encaixes milimétricos.

Participei algumas vezes deste trânsito dentro de veículos motorizados. De taxi foi a forma mais tranquila, quase sem emoções ou novidades. Em compensação, andar no ônibus local (que, pela longa idade, um tanto avariado, levantava dúvidas em nós se não enguiçaria pelo meio do caminho), pela Himalayan Highway em alta velocidade, com direito a ultrapassagens livres nas suas muitas curvas, é algo que só vivendo para saber o que é. Era entregar (e confiar) ou largar. Mas como eu não contava com a opção “largar”, foi a chance perfeita para voltar para o presente, perceber que estava tudo certo, e deixar o medo “do que poderia acontecer” se dissolver. Esses motoristas daqui parecem estar habituados a dirigir em parceria com muitos anjos da guarda. Então foi deixar rolar, curtindo o visual das montanhas, do rio Ganges, e aproveitar.

Mas basta passarmos em uma prova da vida que lá vem outra em seguida. A vida me queria ainda mais presente, entregue e abrindo mão do controle.

Cheguei na Índia, acompanhado de minha esposa-parceira, aterrissando em Deli e, no mesmo dia, viajamos para Rishikesh. Nas três primeiras noites, nós nos hospedamos mais no interior, há 20km da cidade de Rishikesh. Todos os dias nós pegávamos o tal ônibus local para ir e voltar do hotel (treinamento intensivo de presença!). Os últimos ônibus de retorno saíam por volta das 17h (sem muitas garantias, claro). Mas a impermanência que rege o nosso mundo parece estar turbinada por aqui. Num desses dias chegamos ao ponto do ônibus por volta das 16h30min e esperamos uns 30 minutos. Nada do ônibus. Entendemos que dificilmente teríamos a nossa costumeira condução para voltar ao hotel. Estávamos junto a alguns novos amigos indianos e, olhando seus gestos, tudo levava a crer que eles também já desconfiavam da falta do ônibus. Quando já tínhamos aceitado que deveríamos voltar de taxi, um desses amigos pegou uma scooter (que eu nem entendi de onde ela saiu), e fez um sinal para que eu e minha esposa (isso mesmo, nós dois!) subíssemos na garupa. Estava garantida a viagem mais intensa da minha vida! Os 20km do tortuoso caminho pela Himalayan Highway, em meio a carros e caminhões em alta velocidade, em pleno anoitecer, com três pessoas em cima de uma pequena e cansada scooter.

Mas se tem uma coisa que esses momentos extremos podem nos proporcionar, de acordo com as escolhas que fazemos ao vivê-los, é a conexão com a confiança em nós. Dentro de mim, quando o nosso amigo fez o convite e se prontificou a nos levar para o hotel, não havia qualquer dúvida ou receio sobre algo não ir bem. Esse foi o ponto de partida que nos fez aceitar seu convite. Além do mais, belos gestos e encontros parecem sempre estar protegidos. E nós chegamos ao hotel melhor do que estávamos antes do embarque na aventura.

Neste tempo que estou na Índia, quase todo na cidade sagrada de Rishikesh, sou sempre lembrado que não sou eu quem está no controle da vida. Quando os conceitos pré-formatados e as expectativas da mente abrem a guarda, que é o momento em que volto para o presente, torna-se possível dialogar e interagir com esse novo mundo de forma livre e franca. O olho que vê a exuberante beleza natural das montanhas do Himalaia com o Rio Ganges correndo em seus vales, também recebe cenários que misturam poluição, pobreza e desordem. O nariz, que é presenteado com essências de sândalo e incensos diversos que dançam com o ar, não se apega ao perfume, mas também não sente aversão quando encontra o cheiro de um esgoto a céu aberto. Aqui, se você resolve brigar com o que é fato, só porque aquilo te tira da zona de conforto e é diferente do que se imaginava, você perde contato com a sua paz.

Se você está comendo alguma coisa enquanto anda na rua, são grandes as chances de vir um macaco tentando “roubar” a sua comida. Se você resolver enfrentar o macaco, são grandes as chances de você se dar mau. E por falar em “roubo”, aqui, sempre que você vai pagar por um produto ou serviço, são enormes as chances do primeiro valor que te passarem estar muito acima daquilo que é real. E se você se achar roubado, enganado, ou coisas do gênero, e seguir alimentando esses sentimentos, é melhor programar a volta para casa, para o universo que você já conhece. Depois de um tempo, o que eu percebi é que os indianos gostam de brincar, e isso se estende ao negociar. É como um jogo, e eles gostam de testar os novatos que chegam. E se você não estiver presente e achar que eles precisam daquele dinheiro, que são mais pobres que você, vai pagar mais caro mesmo. E eles vão rir de você, não para te provocar, mas porque esse povo vive rindo de tudo. Eles tem essa capacidade de encontrar a alegria onde nós, ocidentais, desaprendemos a ver, no que é simples e banal. Se você achar ele desonesto por querer te “enganar”, e se irritar por isso, por se sentir injustiçado, ele também vai rir de você. Mas se você conseguir estar presente, vai se divertir com ele. O jogo então será o “ganha-ganha”, e provavelmente você pagará o valor justo. E então você perceberá que vocês são iguais, o que é profundamente belo e libertador.

Parece que a principal atividade econômica de Rishikesh é mesmo o turismo, e eu me arriscaria a dizer que mais de 90% desse turismo está relacionado a uma busca espiritual ou de autoconhecimento. Nós já participamos de alguns satsangs (uma espécie de palestra dada por um guru) e cerimônias hinduístas, meditamos em locais energeticamente especiais, nos banhamos no sagrado Rio Ganges e até fizemos Seva (que é o serviço desinteressado, como um trabalho voluntário de purificação do ego, que não quer nada em troca). No entanto, o que me trouxe as mais poderosas verdades sobre mim e que me fez dar um mergulho profundo no meu ser, foi essa espiritualidade latente em cada parte da vida cotidiana deste lugar. Foi abrir o coração para interagir e me ver no mundo de cá, indo além das diferenças e das programações que eu tinha pré-formatadas antes de chegar aqui. Mas eu só consigo fazer isso quando me encontro presente, entregue e abrindo mão do controle. E então, magicamente, os medos, receios e reservas se transformam em coragem, abertura e confiança.

Esse aprofundamento na vida indiana só foi possível pela nossa escolha de nos aproximarmos das realidades daqui, indo além dos “limites turísticos”, nos arriscando a partir da qualidade de cada risco, olhando nos olhos das pessoas e acolhendo as situações que se apresentavam para nós, sem querer evitar um possível choque cultural, fazendo valer a beleza e a força da saudação hindi “Namaste”, que quer dizer: “O Deus que existe em Mim saúda o Deus que existe em Você”.

E o Deus em mim só alcança o Deus do outro com presença, entrega e abrindo mão do controle.

Namaste.

(Texto escrito diretamente da Índia)

Namaste (Foto de Júlia Bertolini)

Namaste (Foto de Júlia Bertolini)

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