A pressa não fala com o Amor

Postado por em 27 jan, 2017 - Textos

Semana passada fui a uma loja de tênis e sapatos. Experimentei uns dois modelos, tentando aliar conforto e gosto. Em meio a experimentação, ouvi os tradicionais argumentos de quem quer vender e não está assim tão envolvido com o que você está procurando. Um dos modelos não tinha cadarço, o que o tornava prático para calçar. E enquanto via ele nos meus pés, ouvi um argumento no mínimo interessante da vendedora: “Esse modelo é ótimo porque, com a pressa que a gente vive hoje em dia, nem precisa perder tempo para amarrar o cadarço.”

Sem perder o humor, comentei com ela: “que vida é essa a que temos, que faz a gente ver perda de tempo em menos de um minuto que paramos para amarrar o cadarço, hein?”. E mesmo com o benefício do tal ganho de tempo, não gostei tanto do tênis e não o comprei.

Saí da loja e me lembrei de um episódio que eu vivi há algum tempo, e que me trouxe um pouco mais de clareza sobre esse padrão de estar com pressa, que nos acostumamos a manter e tomamos como normal (principalmente nos grandes centros). Depois de 11 anos trabalhando em grandes empresas, já formado como psicoterapeuta, resolvi me dedicar apenas aos atendimentos terapêuticos e trabalhos em grupo. Logo após pedir demissão da última empresa, comecei a atender em três locais diferentes no Rio de Janeiro, além de, uma vez por mês, passar uma semana também atendendo em São Paulo. Ou seja, eu estava sempre indo de um lado para o outro.

Um dia, saindo de casa, sem a devida antecedência que traria calma ao meu percurso, e, chegando perto da estação de metrô, encontrei um amigo que não via há muito tempo. Ele, com sua característica amabilidade, abriu um belo sorriso pelo encontro. Eu, pela pressa, temi “perder tempo” ali e comprometer a pontualidade do meu atendimento. Dei um rápido abraço nele e, em meio às suas perguntas sinceras, daquelas que só alguém que realmente preza por você faz, disse: “cara, eu não posso falar agora. To super atrasado.” E, como um típico carioca, finalizei: “depois a gente marca alguma coisa”.

Entrei no metrô e tive a consciência de que eu saí das empresas mas elas, com seus padrões de prazos “ASAP” (as soon as possible – o mais breve possível) ou o famoso “pra ontem”, ainda não tinham saído de mim. Isso sem falar na cultura do tempo do tal “mundo corporativo”: aquela que glorifica quem tá “ferrado de trabalho” e, por isso, vê quem se organiza para ir pra casa depois da jornada de oito horas, e não faz hora extra, como alguém que não gosta de trabalhar ou que está fazendo corpo mole. Assim, estando sempre com pressa e cheio de trabalho pra fazer, o sujeito será bem visto. O contrario disso passa a ser um risco à imagem. Então até quem não tem muito trabalho para fazer, normoticamente, passa a fingir que tem.

Mas a bola agora estava comigo. Não tinha chefe ou empresa para culpar. E não parar para falar com meu amigo me bateu mal. Então, naquele mesmo dia fiz um compromisso comigo: eu iria me organizar para não estar mais com pressa, para poder parar e falar com um amigo na rua, em casos de encontros espontâneos. Mudei meus horários, concentrei meus atendimentos em um só lugar e, depois de alguns meses, também parei de ir para São Paulo. A transição profissional que eu me propus a viver, saindo das empresas e me dedicando aos atendimentos terapêuticos, tinha o propósito de me aproximar da minha verdade, do que era e segue sendo importante para mim, e não havia sentindo em fazer isso correndo. Foi preciso trabalhar alguns medos, encontrar confiança e uma boa dose de coragem, mas eu tinha convicção de que eu queria estar presente na minha vida, e sem pressa.

Alguns anos depois, com o meu tempo já maravilhosamente bem organizado, essa história da transformação que aconteceu no encontro com o meu amigo foi inspiração para uma música que eu compus, chamada “Pingo de Chuva”. Em sua letra ela diz:

“Passos largos na multidão
Reencontro o povo que é meu
Quero tempo pra parar
Quero tempo pra conversar por aqui

A pressa não fala com o amor
A pressa é só solidão
Dentro do meu peito um coração quer se abrir”

E a pressa é realmente uma solidão que não fala com o amor. Além disso, é uma expressão de arrogância, pois, com pressa, a gente facilmente se irrita e acha que tudo está conspirando contra, quando deveria conspirar a favor, ainda que nós mesmos não estejamos conspirando ao nosso favor. E mais: é também egoísmo com uma boa dose de obsessão, já que a nossa pressa passa a ser a coisa mais importante do mundo (“e que se dane o resto”). Depois, quando consumamos o atraso, a pressa vira vitimização, fazendo nascer desculpas sobre o trânsito, a chuva ou qualquer outra coisa que seja socialmente aceitável e que tire a responsabilidade de nós.

Ainda no rico universo musical, me lembro de outra boa música chamada “Vou mandar pastar” de uma banda que gosto muito, chamada 5 a Seco. E diz assim:

“Só quem perde tempo é quem acha que não tem mais tempo a perder”.

O tempo é um Mestre, uma força poderosa nessa escola que é a Vida. E sempre está ao nosso favor quando escolhemos ser verdade e manifestá-la no mundo.

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Em meio a essas lembranças sobre a relação com o tempo prático e os tempos internos, me visitam também dois outros episódios significativos.

O primeiro aconteceu na época da faculdade. Havia uma tarefa, de uma matéria que não me lembro bem, que deveria ser feita para um dia específico. Valia até nota! Chegado o dia, eu não tinha feito a tarefa. Já estagiava e lembro de ter falado com o professor algo do tipo: “tenho trabalhado muito e, por isso, não consegui parar para fazer a tarefa. Posso trazer na semana que vem?”. Ele, de uma forma calma, e com um sorriso sincero no rosto, disse pra mim (e isso eu me recordo perfeitamente): “tempo é uma questão de escolha. Por exemplo, você escolheu dormir, não foi? Se quisesse realmente ter feito essa tarefa, poderia ter dormido menos uma ou duas horas em uma das noites entre a última aula e hoje”. Obviamente eu perdi aqueles pontos e tive que me garantir na prova depois, mas o que eu ganhei naquele dia foi valioso, principalmente porque com aquela fala eu parei de me enganar e percebi que eu verdadeiramente não tinha escolhido fazer a tal tarefa. Me abri ao poder da escolha e parei de acreditar ser uma vítima do tempo.

O outro episódio aconteceu no meu primeiro emprego. Depois de um ano na empresa, havia chegado um novo chefe. Era um profissional muito organizado, direto e que trabalhava intensamente enquanto estava na empresa. Na primeira semana, percebi que ele sempre ia embora pontualmente às 18h, o que não era normal até então por ali. Num desses dias, na hora em que ele ia embora, eu ainda estava imerso em coisas para fazer. Ele veio se despedir de mim e disse: “olha, Arthur, eu te acho um cara muito bom, mas quero que você saiba que, para mim, quem fica depois da hora é incompetente. Ou não consegue organizar o próprio tempo para fazer o trabalho dentro da carga horária, ou está pegando coisa demais, além do que pode fazer, e não consegue sinalizar o seu limite. Até amanhã”. E assim eu recebi outro poderoso presente sobre o tempo. Em algumas semanas a empresa se ajustou a essa nova filosofia e não só o trabalho não ficou comprometido como a sensação era de que todos estavam mais dedicados e satisfeitos.

A Persistência da Memória - Salvador Dali

A Persistência da Memória – Salvador Dali

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