Ter razão ou Ser feliz?

Postado por em 5 mai, 2016 - Textos
Sorriso TIbetano

Sorriso TIbetano

Há algumas semanas fui convidado para assistir duas aulas dentro de uma formação terapêutica aqui em Pondicherry, no sul da Índia. Essa formação e seu facilitador me foram recomendados por um grande amigo, que participou deste mesmo curso em 2012. Lembro de ter percebido o impacto positivo desta formação na vida do meu amigo quando ele retornou ao Brasil e, naquele momento, pensei: “quando visitar a Índia quero conhecer esse terapeuta e, quem sabe, fazer o curso também”.

(Para saber mais sobre a viagem que eu estou fazendo há um ano, clique aqui e/ou aqui)

Chegando no sul da Índia, há quase um mês atrás, entrei em contato com o terapeuta e descobri que ele já tinha iniciado uma nova turma e, portanto, não haveria um novo início durante a minha estadia aqui, o que me trouxe clareza que eu não faria a formação (pelo menos não agora). De qualquer forma, ele foi muito gentil comigo, me convidando para participar de dois dias da formação daquela turma em curso.

Encontrei naquele terapeuta um Ser com grande sabedoria. No segundo dia da minha participação, escutei algo que muito me tocou. Ele, que trabalha de 10 a 12 horas por dia, pois além da formação terapêutica também atende muitas pessoas, disse que antes de sair de casa faz uma preparação interna para lidar com as diferentes pessoas que ele encontrará em sua jornada. Uma parte dessa preparação é se lembrar de não entrar em qualquer tipo de confronto ou briga que seja violenta, independentemente do que esteja sendo dito pelo outro.

Ele disse: “as vezes chega uma pessoa pra mim dizendo que não gostou de algo que eu fiz ou disse, que ficou chateada comigo, que está irritada, que não queria mais me ver, entre outras coisas.” E continuou: “eu escuto a pessoa e, antes de pensar se ela está falando a verdade ou não, se faz sentido ou se é uma criação da cabeça dela, eu peço que ela me perdoe. Assim eu não entro em qualquer desarmonia. Não vale a pena, pois não tenho verdadeiramente nada a ganhar com isso. Como eu encontro muita gente por dia e lido com as emoções das pessoas a todo tempo, fico mais leve assim, sem carregar nada do outro para mim e sem depositar nada meu no outro. E então, do lugar da harmonia que traz o perdão, a gente pode se ouvir melhor.” Com um sorriso sincero, tranquilo e sábio, de quem está falando de um lugar de larga experiência, daqueles que aprenderam a calar as manifestações competitivas do ego, finalizou: “é melhor para todo mundo!”

Depois, disse que também segue esse princípio até em situações simples do cotidiano, quando há um estranhamento de uma pessoa em relação a ele, como por exemplo, quando há um esbarrão na rua. Mesmo que o esbarrão tenha sido ocasionado pelo outro, e ainda que isso esteja evidente, ele pede perdão, sorri e segue o seu rumo.

Aquilo me tocou profundamente. Escutar aquela sabedoria, com sua efetiva simplicidade, me fez refletir na quantidade de vezes que eu saí do meu centro por uma discussão que, no final, não valia nem um décimo da energia usada por mim para que ela acontecesse. Nas semanas seguintes, segui com o exemplo do professor-terapeuta inspirando a minha auto-observação.

Algumas semanas se passaram e eu pude realmente sentir, de forma vivencial, a potência da sua atitude.

Desde que cheguei ao sul da Índia, no início de abril, estou hospedado em Auroville, numa experiência prática dentro desta comunidade, juntamente com a minha esposa. Para quem não conhece, Auroville é uma cidade-comunidade internacional que foi fundada em 1968 através de uma visão do Sri Aurobindo e da Mãe (guias espirituais de gente do mundo todo), com a proposta de ser um espaço universal focado no desenvolvimento do ser humano enquanto parte de uma unidade espiritual, aberto para todos aqueles que se sentem afinados com o projeto.

(Para saber mais sobre Auroville, clique aqui e visite o site oficial)

No centro de Auroville está o Matrimandir, um lindo templo construído para facilitar o mergulho interno dos que o frequentam. O local é realmente muito especial, principalmente por oferecer um raro silêncio, sendo um espaço de quietude absoluta. Estamos aproveitando essa estadia de quase um mês aqui para ir meditar lá todos os dias. Os visitantes de Auroville, como nós, podem frequentar o local entre 10h e 11h40 da manhã.

Hoje, na saída do Matrimandir, resolvemos dar uma volta mais longa pelos jardins do seu entorno. Ao nos encaminharmos para a saída do complexo, uma senhora veio, de forma um tanto truculenta, nos avisar que já havia passado de 11h40min e que nós não poderíamos estar ali, que já deveríamos ter saído. Nós, que saímos quase “voando” dessa meditação matinal, não tínhamos reparado na hora. Eram 11h45min e tomamos uma bela chamada de atenção por esses 5 minutos a mais por ali, o que nos pareceu desmedido.

Eu, que em algum momento aprendi (ou desaprendi) com aquela história de não levar desaforo para casa, me vi instigado a reagir e argumentar com ela, principalmente pela forma que ela escolheu falar conosco. Mas alguma coisa nesses últimos dias mudou em mim. Ao invés de falar, olhei no fundo dos seus olhos a partir daquele estado de paz pós-meditação e, quando ela terminava de falar conosco, pude até sentir um certo embaraço por sua parte, como se estivesse sentindo: “ih, peguei pesado”. Ao invés de dar espaço para um monte de possíveis respostas ao nosso favor, larguei a necessidade da razão e simplesmente a acolhi. Minha esposa fez o mesmo e ainda agradeceu no final!

Lembrei do professor-terapeuta e o entendi melhor. As vezes a gente “compra uma briga”, mas ele aprendeu desde cedo a pagar para sair delas. E o melhor é que esse pagamento se dá com o orgulho e a vaidade do ego, sentimentos esses que nos fazem querer “ganhar” do outro. Sem a ilusória necessidade de tentar ser melhor do que alguém, é possível se render e descansar na humildade, que está sempre disponível a serviço da paz e da harmonia. Com a sustentação da humildade, um novo espaço em nós fica disponível, e então sentir o outro passa a ser mais simples. Com isso, paramos de nos identificar com qualquer manifestação que parece estar contra nós, entendendo que aquilo tem origem em uma história desencaixada dentro da própria pessoa. E quando a gente consegue sentir o outro, paramos de julgá-lo. Assim, um genuíno gesto de estender a mão e prestar auxílio pode, espontânea e naturalmente, partir de nós.

Por isso o conflito pode ser uma valiosa oportunidade, se abrimos o espaço para a ação da compaixão: a gente se dispõe a descobrir o outro e, com isso, também vamos nos descobrindo em nossas luminosas versões.

Voltando à minha história, depois de ser tocado pela clareza dessa consciência harmônica, também tive uma genuína vontade de pedir perdão à aquela senhora. Não que eu tenha feito algo contra ela, ou que tenha sido eu o causador direto de sua manifestação raivosa, mas porque através daquela dor eu pude entrar em contato com a compreensão do amor em mim. E desse lugar eu senti que a sua dor é também a uma dor minha, afinal, somos parte da mesma história.

Amanhã de manhã, antes de sair de casa, vou fazer como o professor-terapeuta: me lembrar de encher minha carteira com orgulho e vaidade e, na primeira oferta de desarmonia, estarei pronto para pagar à vista! E te encorajo a fazer o mesmo. Afinal, o mundo está cheio de ofertas de paz por aí.

Matrimandir: Templo do Silêncio

Matrimandir: Templo do Silêncio

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