Reinventando o que traz a dor

Postado por em 12 ago, 2015 - Textos

Sempre fui apaixonado pelo novo e por tudo aquilo que é criação. Por isso, para mim é um grande desafio lidar com verdades absolutas, que na maior parte das vezes são apenas uma projeção do que já passou. Acredito que, por mais que algumas situações possam vir a ser muito parecidas com algo que já experienciamos, nada se repete e tudo é diferente. Quando nos baseamos apenas no que já passou, no que é memória, criamos o nosso futuro como uma projeção do passado.

Admiro e naturalmente me inspiro naqueles que, com muito amor e leveza, desafiam a normalidade que, de tanto ser repetida, acaba virando uma referência. Lembro do meu querido amigo e mestre Ernani Fornari quando citava o exemplo de uma frase que é encrostada na nossa cultura: “para se dar bem na vida é preciso ralar, se matar de trabalhar”. Quem disse?

Já cruzei com muitos e diferentes tipos de pessoas e realidade. Aquelas que eram mais felizes, completas e realizadas (muito além de apenas “se dar bem na vida”), amavam o que faziam e por isso mantinham uma relação de prazer e proximidade com seu(s) trabalho(s). Outro ponto em comum entre estas pessoas é como cuidavam de seu tempo para o lazer além do trabalho.

A paixão pelo novo, os encontros com realidades completamente opostas ao que muitas vezes me foi apresentado como verdade absoluta e a clareza de que o meu caminho é um percurso único e inigualável me levaram a fazer da minha vida um grande laboratório de experimentação e criação.

Em uma dessas experimentações encontrei uma nova possibilidade para minha relação com a dor. Aconteceu em 2013. Durante este ano, por uma semana ao mês, eu saía do Rio de Janeiro para trabalhar com atendimentos terapêuticos em São Paulo. Eram dias com agenda cheia de atendimentos e trabalhos em grupo. Tudo muito intenso, com maravilhosos aprendizados e descobertas.

Em uma dessas idas a São Paulo algo que não estava planejado aconteceu. Logo no primeiro dia, antes de iniciar a agenda de atendimentos, fui me abaixar para pegar alguma coisa na minha mala e senti uma forte dor na minha lombar. A musculatura das minhas costas travou na hora e eu mal podia me mexer. Tinha acabado de meditar e me arrumava para ir a um dos espaços onde fazia os atendimentos. Com a agenda de compromissos em mente pensei: “como é que vou passar a semana desse jeito?”. Algo parecido já havia acontecido comigo em um outro momento e eu precisei de mais de uma semana para me recuperar totalmente.

Entendo a dor como um mensageiro, que vem sempre trazer a possibilidade de nos reinventarmos em algum aspecto que não estamos observando bem. A clareza desta consciência me visitou e eu me senti convidado a experimentar uma relação diferente com os movimentos reduzidos e a dor nas costas. Então, fiz dois fundamentais acordos comigo:

- Se estou com dificuldade para me mexer, vou respeitar minha limitação, ao invés de forçar algo que, neste momento, eu não posso fazer.
- Quando eu sentir dor, ao invés de reclamar (com os usuais “ui”, “ai”, “ta doendo”, etc.) e aumentar a dor, vou aceitar que ela está aqui e oferecer a minha escuta, para que ela dê o seu recado integralmente.

Já me sentia melhor após selar os acordos comigo. A dor era a mesma, mas a minha relação com ela foi transformada subitamente. Consegui trabalhar normalmente e então, no terceiro dia, tomando banho, me dei conta que a dor não estava mais ali. A aceitação do meu estado me fez focar naquilo que era possível ser feito, ao invés de colocar mais energia na dor (mais “lenha na fogueira”), que é a reação mais automática e normal que acontece quando negamos o que vivemos. A dor veio, deu seu recado (me ensinando muito) e, depois de cumprir seu papel, foi embora suavemente.

É bastante usual vivermos e vermos momentos em que uma situação fica ainda pior pela reclamação automática, que deriva da não aceitação de algo que chega sem avisar. Quando pegamos este caminho, escolhemos usar nossa energia para dar ainda mais tamanho ao que nos traz incomodo. É como um barulho que fica cada vez mais alto. As vezes nós é que fazemos questão de aumentar o volume do barulho apenas para colher olhares, como atores numa peça de teatro querendo palmas em uníssono.

Se lembrarmos de momentos cotidianos em que nos irritamos, podemos ter ainda mais clareza de que não foi ficando mais irritado que conseguimos resolver a questão que nos importunava.

É difícil redesenharmos alguns ciclos que estamos habituados a entrar, mas há, certamente, uma estrada cheia de novas cores quando aprendemos a nos reinventar a partir do que é leveza em nós.

il teatrino (foto de Arthur Belino)

il teatrino (foto de Arthur Belino)

———————————————————————————————————————————————————
Aqui deixo um presente para você!
Em meados de 2015 eu realizei um sonho especial: lancei o meu primeiro disco solo, chamado “O que se esconde por trás da vergonha”, com 14 lindas canções que nasceram simplesmente para servir e celebrar à vida. Esse disco foi o resultado de uma busca pessoal sobre todo o brilho que se esconde por trás de cada um de nossos personagens diários, investigando a beleza, a coragem, a poesia e a verdade do Ser. Baixe o disco gratuitamente em: www.arthurbelino.com.br.
———————————————————————————————————————————————————