O Silêncio Real

Postado por em 26 mai, 2016 - Textos
Serenidade (Foto de Arthur Belino)

Serenidade (Foto de Arthur Belino)

O silêncio é um precioso estado de espírito. Não é algo a ser alcançado, pois sua manifestação acontece naturalmente quando estamos conectados à nossa Verdade. Talvez muito mais do que o falar, o oposto do silêncio seja o pensar. Podemos estar com a boca fechada, sem emitir qualquer fala, mas cheios de pensamentos, o que certamente tem a capacidade de nos deixar agitados, principalmente quando damos espaço para que eles cresçam e se desenvolvam em nós.

Como estamos identificados apenas com o mundo que é exterior a nós, automaticamente criamos necessidades para que o silêncio venha deste exterior e nos traga momentos de paz. No entanto, uma pessoa pode estar no meio de uma multidão e sentir o silêncio dentro de si, ao mesmo tempo que outra pode estar isolada do mundo, numa cabana no meio de uma floresta, e ser incapaz de acalmar sua mente. Quando buscamos o silêncio apenas fora de nós, antes de tudo a gente concorda e dá força à nossa incapacidade em manifestarmos o silêncio que já existe em nós, e que é uma característica do nosso estado natural de Ser. Ou seja, trata-se de algo não verdadeiro, pois esse silêncio real é uma parte do que somos.

O que vemos e sentimos a partir do exterior é sempre uma projeção daquilo que estamos vivendo internamente. Durante o período em que passei na Índia, entre fevereiro e maio de 2016, vivi três interessantes episódios que oferecem clareza sobre essas projeções na relação com o precioso silêncio do Ser.

1) Em Silêncio Interior:

Bodhgaya foi uma das cidades que visitamos durante o nosso período na Índia. Durante os seis dias que estivemos por lá, eu e minha super esposa desfrutávamos a companhia de um grande amigo, que viajou conosco por uma boa parte do nosso percurso em terras indianas.

Escolhemos visitar Bodhgaya para viver essa que é talvez a cidade mais sagrada para o Budismo. Foi lá que, com o cessar das dúvidas e questionamentos sobre a vida, reconhecendo assim o estado natural de felicidade do Ser, Siddhartha Gautama, o Buddha, iluminou. Entre os locais que escolhemos visitar nesta cidade estava uma caverna onde Buddha viveu e meditou por aproximadamente seis anos.

Durante todo o ano essa caverna recebe a visita de budistas do mundo inteiro. Assim que chegamos, vimos um ônibus cheio de turistas orientais, provavelmente budistas, indo embora. Nosso amigo comentou: “ainda bem que chegamos agora. Imagina entrar lá para meditar com esse monte de gente? Seria impossível!” Com a sensação da sorte ao nosso lado, subimos o monte que abriga a caverna.

A caverna é bem pequena e hoje possui uma estátua do Buddha em seu interior. Ao entrarmos, sentamos no chão para meditar. Nos faziam companhia uma senhora estrangeira, que contemplava a estátua, e um senhor indiano, que parecia cuidar do local. Pouco depois de fecharmos nossos olhos, esse senhor começou a cantar o que parecia ser um mantra.

Para mim não é fácil sentar de forma confortável no chão, sem uma almofada, como era o caso. Também lembro que estava muito quente ali dentro, mas essas lembranças são anteriores à meditação. De alguma forma, meus pensamentos cessaram e eu pude repousar numa profunda paz interior. Os incômodos desapareceram e até a cantoria do senhor se mostrava harmônica com o momento. Não tenho lembrança do que ocorreu na meditação, até porque ali não havia necessidade de nada para ser lembrado ou pensado; tudo era apenas presença e silêncio.

Saímos da caverna e, enquanto vestíamos nossos tênis, meu amado amigo esbravejou: “fiquei meio irritado com esse cara cantando. Queria meditar e não conseguia. Quanto mais eu tentava abstrair da cantoria dele, mais me irritava. Então resolvi sair. Deveriam colocar uns avisos de silêncio na caverna para quem vem aqui meditar.” Eu, que naquele momento me sentia em completa paz, vendo a paz até em sua fala, não comentei nada. Não havia necessidade de responder qualquer coisa para ele, visto que meu amigo parecia precisar apenas desabafar a sua agitação interna, que acabou sendo manifestada e espelhada pelo senhor que cantava mantras.

Quando vivemos a mesma realidade exterior do que outra pessoa e vivenciamos experiências completamente diferentes, fica claro que nós refletimos no mundo aquilo que estamos vibrando internamente. Se estamos agitados, vemos a agitação do mundo. Se estamos em paz, é a paz que se manifesta para nós. No entanto é normal, em momentos de frustração, voltarmos o nosso olhar para fora, como o meu amigo fez em seu desabafo, mas eu tenho absoluta certeza que, depois de desabafar, ele foi se encontrar com sua agitação interna e apaziguá-la, talvez ali mesmo, enquanto descíamos o monte da caverna.

2) Em Agitação Interior

Uma semana depois estávamos em Auroville, no sul da Índia. Para quem não conhece, Auroville é uma cidade-comunidade internacional que foi fundada em 1968 através de uma visão do Sri Aurobindo e da Mãe (guias espirituais de gente de muitos lugares do mundo), com a proposta de ser um espaço universal focado no desenvolvimento do ser humano enquanto parte de uma mesma unidade espiritual.

No centro de Auroville está o Matrimandir, um lindo templo construído para facilitar o mergulho interior de quem o frequenta. O local é realmente muito especial, principalmente por oferecer um espaço de raro silêncio e quietude absoluta. No primeiro dia que entramos no templo, ficamos maravilhados e concordamos que seria sensacional, durante a nossa estadia em Auroville, ir todos os dias meditar lá.

No dia seguinte, fomos os três para o Matrimandir. Durante os quarenta minutos que estivemos lá, nesse que talvez seja o local mais silencioso do mundo, minha mente não me deixou em paz por um minuto e eu, de certa forma, alimentei essa agitação. Diferentemente do que aconteceu com meu amigo na caverna, não havia qualquer pessoa ou situação exterior a mim para culpar pela minha falta de silêncio, que vinha de dentro. Foi então que o corpo começou a se incomodar com toda e qualquer posição que eu me colocasse sentado. Por mais que eu, teoricamente, estivesse sentado de forma confortável, qualquer detalhe se transformava em um incômodo e conseguia tirar a minha presença. Foi uma luta! Quarenta minutos que pareceram quarenta horas.

Nesse dia eu estava realmente agitado e ilusoriamente fui para o templo Matrimandir acreditando que o seu silêncio pudesse, por si só, me acalmar. Ao sair de lá, ficou claro que essa expectativa de alcançar o silêncio por algo exterior a mim só deu mais energia para a agitação, pois tive que lidar também com a frustração de perceber que nem o lugar mais silencioso do mundo seria capaz de silenciar alguém dando energia para a mente, que com sua necessidade de ser a fazedora das coisas da vida e a autora de todas as soluções, seguia com sua atividade pensante, ao invés de simplesmente entregar-se para o estado natural do Ser, que está sempre na resolução de tudo e em permanente silêncio. Foi uma ótima lição!

3) Na Paz da Espontaneidade

Depois de quase um mês em Auroville, fomos para Tiruvannamalai, dessa vez sem a companhia do nosso amado amigo. Fomos para lá para vivermos uma semana do dia-a-dia do Sri Ramanashram, que é o ashram onde o sábio Ramana Maharshi viveu e oferecia sua presença e ensinamentos para gente de todo o mundo.

Um dos nossos programas diários era ler seus profundos e preciosos ensinamentos na biblioteca do Ashram. Quando fala-se em biblioteca, imaginamos um local silencioso, onde as pessoas só falam se for muito necessário, e ainda assim bem baixinho. Não na Índia, nem mesmo dentro de um Ashram! Lá, os indianos, incluindo os responsáveis pela biblioteca, falavam a vontade. E as vezes falavam alto mas, por incrível que pareça, isso acontece sem qualquer desrespeito com aqueles que estão imersos em suas leituras. Por outro lado, aqueles que estão lendo, com ou sem falação, não pedem silêncio: seguem sua leitura normalmente, sem qualquer incômodo. Todos parecem estar acostumados a falar quando querem e, consequentemente, todos parecem saber silenciar sem depender do outro.

Em um desses dias lá na biblioteca, ouvi um celular tocar enquanto lia. O senhor pegou o telefone e, com muita naturalidade, falava sem qualquer preocupação. Tinha um belo sorriso no rosto este senhor, durante sua conversa ao telefone. Ao meu lado estava uma senhora. Olhei para ela algumas vezes enquanto o senhor seguia no telefone e era incrível como seu silêncio, e, consequentemente, sua leitura, eram inabaláveis! Olhei para o senhor e, mesmo sem entender o que ele dizia, me senti feliz por vê-lo feliz. Aquilo tudo parecia estar em perfeita harmonia: minha leitura, o senhor, seu sorriso, o telefone, a senhora e até duas outras vozes que se manifestavam em uma conversa do outro lado do salão. Sentia paz no meio do que, em um outro momento, julgaria ser um absurdo. E a paz no absurdo é coisa do silêncio real, verdadeiro, impossível de ser rompido.

Aquilo, para mim, foi mais uma prova real de que não existe uma medida externa que possa definir um silêncio ideal para se fazer qualquer coisa. O que existe e é real é a nossa capacidade de sermos tudo aquilo que queremos e estamos habituados a exigir do outro e das situações externas. Enquanto o olhar estiver para fora, não é possível viver o que é Verdade e é permanente em nós. Quando paramos de exigir do outro aquilo que podemos ser e fazer, passamos também a ser mais naturais em nossas manifestações e vamos além dos “modos” que aprendemos como certo e errado. Então o silêncio real naturalmente se manifesta em nós e passa a ser sinônimo de liberdade, confiança, respeito, harmonia, paz, felicidade e amor. É quando a vida pode fluir através de nós, sem qualquer pensamento para impedi-la de seguir seu curso verdadeiro.

Silêncio no Absurdo (Foto de Arthur Belino)

Silêncio no Absurdo (Foto de Arthur Belino)

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