O que uma simples árvore de caqui tem a nos dizer

Postado por em 2 nov, 2015 - Textos

É sempre muito potente o contato com a poesia da natureza que, como uma mestra, tanto tem a nos ensinar quando queremos escutá-la. Semana passada aprendi um monte com uma árvore de caqui.

Ela, a árvore de caqui, passou o ano todo trabalhando, em movimento. Sem qualquer dúvida sobre a sua tarefa, dedica a vida por realizá-la. A total entrega à história que ela se se põe a criar, naturalmente, traz frutos.

Mas a árvore não se apega a sua criação. Seus frutos crescem e ela só se mantém sustentando-os até o momento em que outra parte da vida possa recebê-los. Enquanto isso não acontece, o peso dos caquis faz seus galhos e ramos apontarem para o chão.

E quando a vida vem ter com ela, na forma de pessoas e animais, ela não oferece qualquer resistência: sem nada querer em troca, entrega os frutos do seu ano de trabalho.

Me arrisco a dizer que sortudas são essas árvores que entregam seus frutos para aqueles que os mantém vivos dentro de si, depois de comê-los. Mas também imagino que as outras, que soltam seus frutos por terra, ficam felizes por animar o solo.

E depois de soltá-los, ela pode, novamente, respirar com um pouco mais de leveza. Seus braços, galhos e ramos voltam para o lugar e assim, depois de concluído o ano de trabalho, ela está livre para recomeçar, iniciando um novo ano daquilo que ela faz.

Ela não faz nada além disso, mas ela faz tudo.

As distrações não lhe atraem. Ela sabe qual é o seu caminho, a sua tarefa, e direciona toda a sua energia para esta realização, para criar a história que ela veio contar.

Não se apega aos frutos de seu trabalho, o que a faria seguir pesada para, em seguida, vê-los perecer em suas mãos. Ao contrário, oferta sua criação e, na medida em que favorece outras vidas, abre espaços para que novos frutos possam ser criados.

A árvore de caqui nos ensina um pouco sobre o que é servir.

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Essa história da árvore de caqui traz luz a uma questão relacionada às nossas atividades profissionais, ao que chamamos de trabalho:

Você seguiria fazendo o seu trabalho, na sua profissão, ainda que não recebesse nada por isso, além do próprio ato de fazê-lo?

Essa pergunta pode abrir um espaço de investigação interna e, junto a outras perguntas, ampliar a visão para um processo que nos traga clareza sobre o quão perto ou distantes estamos de trilharmos o caminho de nossa vocação, aquele em que a simples atuação nos traz o sentimento de realização.

É neste caminho que nos aproximamos do que é serviço e de todo o resto que não se pode prever ou controlar.

Ao contrário, quando se insiste em seguir separando o que é pessoal do que é profissional, não dando espaço para o que é vocação, talento e verdade em si, existe a tendência de querer cada vez mais algo (dinheiro, poder, cargo, etc.) em troca do trabalho.

Observação importante: não faço campanha para que o trabalho não seja remunerado. Apenas entendo que, quando trabalhamos com prazer e nossas vidas pessoal e profissional naturalmente fazem as pazes, o retorno financeiro deixa o papel de objetivo de vida e retorna a um posto mais harmonioso, de consequência do que se é, do serviço e da entrega.

(foto de Júlia Bertolini)

(foto de Júlia Bertolini)

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