Terra Estrangeira e o Mundo Maravilhoso

Postado por em 10 dez, 2015 - Textos

Terra estrangeira. Um país com grande parte da população vivendo na pobreza é o local de encontro de dois amigos. Um deles, há algum tempo viajando, estava ali quando o outro resolveu fazer uma viagem para o mesmo lugar. Eles então, muito felizes pela oportunidade de se encontrarem depois de algum tempo distantes, combinam o encontro.

Enquanto caminhavam pela rua, conversando sobre o tanto vivido e sentido no período em que estiveram distantes, em experiências diversas mas cheias de coisas em comum, perceberam que uma criança se aproximava deles. Como é comum naquele país, ela chegou perto dos dois estrangeiros para pedir dinheiro.

A criança foi pedir diretamente para aquele que estava viajando há mais tempo. Ele, que havia deixado sua carteira no local em que estava hospedado, não tinha nada além de uma garrafa d’água em suas mãos. Dirigiu-se a criança de modo respeitoso, educado e carinhoso, dizendo que não tinha dinheiro para dar a ela. Então a criança quis sua garrafa de água, como se jogasse com ele e percebesse que ele não poderia dizer que não tinha água. Ele, que já não estava com sede, prontamente atendeu ao pedido da criança e lhe entregou sua garrafa com água pela metade.

A criança saiu contente por ter “ganho” aquele jogo e o rapaz ficou contente por ter participado dele.

O outro amigo, que observou tudo sem ser abordado, contrariado disse:
“Quando essas crianças chegam pedindo alguma coisa eu já dou um corte, seco. Não pode dar muito espaço para elas não! Se você dá espaço, elas querem tudo. Vão pedindo qualquer coisa e não te deixam em paz. Cheguei há pouco tempo mas já aprendi isso.”

O amigo viajante deixou então sair uma voz que vinha diretamente da pureza de seu coração e que conduziu as seguintes palavras:
“Todos iremos ganhar e perder coisas na vida. O que o dinheiro compra, passará. E tudo o mais, inclusive as ideias que temos do que somos, do que achamos que precisamos, das nossas vontades e incômodos, também passará. Sinto que quando tudo isso passar, ficarão os sentimentos e o que descobri de cada experiência, pois, quando olho para trás, para o que já passou, percebo que é isso que sigo carregando em mim.”

O outro amigo queria ouvir mais e, com seu silêncio, pediu que a voz do amigo viajante continuasse:
“Essa criança tem um mundo maravilhoso a ser descoberto por todos aqueles que cruzam com ela. Para me encontrar com esse mundo dela, que é cheio de encantos e magia, eu devo estar aberto para o meu próprio mundo maravilhoso. Só o que é maravilhoso em mim pode se encontrar com a maravilha de seu mundo. E esse encontro me traz o deleite de me encantar comigo.”

O outro amigo seguia em silêncio e o amigo viajante seguiu expressando aquela voz:
“Se eu tomo o que é passageiro como o que há de mais importante na vida, vivo a ilusão de achar que é eterno aquilo que passará. E de forma alguma poderia me encantar com o que é maravilhoso nesta criança e em mim.”

Ao ver que o silêncio do outro amigo se dava por sentir-se um pouco envergonhado, a voz do coração do amigo viajante lhe disse:
“Eu já pensei como você, já agi como você e, depois, já me senti culpado e envergonhado por isso, por não saber fazer diferente. Mas isso é uma bobagem. As coisas acontecem naturalmente e não precisamos criar sofrimento em nós. Por algum movimento específico que não posso compreender, ou pela consequência das escolhas que em algum momento passei a fazer, algo mudou em mim e na minha forma de ver um momento como o que acabamos de experimentar. Depois disso percebi que me sentia verdadeiramente livre ao optar por me relacionar abertamente, e não deixar para viver depois, o que é simples, único e maravilhoso e que, por graça, cruza o meu caminho. Com todo o meu amor, só posso desejar o mesmo para você.”

O outro amigo, com uma última cartada e numa forma de aproveitar ao máximo aquela voz, perguntou:
“Mas você não acha isso meio absurdo, essa coisa de ficarem te abordando para pedir coisas?”

A voz do coração do amigo viajante, com suavidade e carinho respondeu:
“A gente tem esse habito de achar absurdo o que se pode entender facilmente. Nós somos dois estrangeiros e, no que diz respeito ao que é material, com muito mais possibilidades do que a grande parte do que estão aqui. Se enxergamos com o olhar mais simples, é entendível essa dinâmica do pedir de cá. Dar ou não dar é uma escolha absoluta para quem escolheu, e sinto que isso não se pode julgar. Talvez o “absurdo” nesses casos só nos sirva para criar uma barreira entre nós e aquilo que nos desafia, porque é algo que nos incomoda e que ainda não sabemos como lidar de forma equilibrada e harmoniosa, e também porque já sabemos que podemos fazer melhor do que estamos habituados, mas que isso gerará um certo trabalho para nós. Mas eu aprendi que por traz de todo desafio há sempre algo novo, vindo daquele mundo maravilhoso, de dentro e de fora, e quando consigo ir além do desafio, entro em contato com o que antes era inimaginável. Nessas horas eu me sinto mais vivo do que nunca, como se eu me atualizasse com uma nova versão de mim mesmo.”

O outro amigo parou de andar e, quando o amigo viajante olhou para ele, sabia que aquele silêncio era um pedido de abraço. Os corações se encontraram e, depois de alguns segundos, eles seguiram caminhando, para desvendar um pouco mais daquela terra estrangeira.

Foto de Artur Romeu

Foto de Artur Romeu

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