Trazendo o futuro para o presente

Postado por em 22 out, 2015 - Textos

O que você vai ser quando crescer?

Quantos de nós ouvimos esta pergunta quando crianças? Provavelmente todos.

Esta pequena e aparentemente simples pergunta pode dizer bastante sobre um tipo de comportamento que está entranhado em nossa cultura, e que tanto nos confunde em nossas vidas: o habito de frequentemente estarmos com nossos pensamentos focados em um tempo futuro. A esperança é que encontremos, neste futuro, algo melhor do que estamos vivendo hoje.

Se ampliarmos e simplificarmos esta fantasia, podemos dizer que o foco no futuro nasce de uma vontade de chegarmos num lugar onde todos os nossos problemas de hoje estarão resolvidos e, finalmente, poderemos desfrutar melhor da vida que temos.

A culpa não é dos nossos pais ou familiares, que talvez sejam os principais interessados em fazer aquela pergunta. Esta é uma característica do sistema que vivemos e co-criamos diariamente. Depois que nascemos, entramos em contato com um mundo que comunica a todo tempo a promessa de que, em algum lugar do futuro, existe um certo paraíso no qual finalmente poderemos ser completamente felizes. E, sem uma base de referência em nosso ser, não só aprendemos isso como facilmente passamos a adotar a dinâmica desta promessa em nossas vidas.

No entanto, esta fantasia do futuro, que estamos tão acostumados a criar e a alimentar desde que pensávamos naquilo que gostaríamos de ser quando crescêssemos, desconsidera aspectos fundamentais da vida. O primeiro deles é o esquecimento do presente, do aqui e do agora, o único tempo real onde podemos fazer algo que realmente gere impactos em nossas vidas. Além disso, há de se observar um pouco mais de perto que futuro é este que estamos projetamos. Ele geralmente nasce de uma necessidade de segurança e controle, de garantirmos que estaremos melhores “lá na frente”. O fato é que, em cima disso, a criação do futuro abre mão do que é novo, pois o conceito de segurança parte de experiências que vivemos, ou seja, daquilo que já aconteceu e está registrado em nossas memórias.

Conceito de "Segurança" Criado pela Mente

Conceito de “Segurança” Criado pela Mente

O infinito de variáveis, completamente imprevisíveis, que se relaciona conosco a todo tempo, vai nos trazendo cada vez mais intimidade com a impermanência da vida. Não fica difícil perceber que a fantasia do futuro que projetamos é ilusória, com grande capacidade de distração.

Se atualmente temos questões que nos trazem dificuldades (aquelas que adoraríamos tirar de nossas vidas em um estalar de dedos) e projetamos o nosso futuro sem estas questões, como é que elas serão resolvidas, se não estamos focados no aqui e agora? Somente no presente podemos entrar em contato conosco e é neste tempo que existe um real espaço aberto para as nossas ações.

Me lembro de uma história que vivi há alguns meses atrás e que ilustra bem este assunto.

Em abril deste ano iniciei um período que me dei de presente, para me ver através de novas culturas, lugares e histórias. Viajar mais livremente, sem data prevista de retorno e sem muito planejamento era algo que sempre senti vontade de fazer. A organização deste período aconteceu durante os 6 meses que antecederam a data da partida. Fechei minha sala de atendimentos, saí do apartamento em que morava, vendi móveis e eletrônicos, resolvi questões bancárias, terminei a gravação do meu disco e fiz seu lançamento, visitei meus familiares, entre outros. Foram vários movimentos e quanto mais se aproximava a data do início da viagem, mais intensa era a sensação de que ainda havia muito a ser feito.

Sempre que os amigos mais próximos me viam um pouco agitado com o momento, me diziam: “fica tranquilo, quando você entrar no avião essa agitação toda vai passar”. Eu, de alguma forma, alimentava aquilo e concordava. Suspirava profundamente quando pensava no momento em que eu estaria naquele avião. Até que um dia, de tanto ouvir isso, percebi que estava me iludindo. Então me abri para a visita da luz da simplicidade: “porque eu não trago essa tranquilidade do avião para este momento? O que é que está faltando?”.

Tirei aquele momento para observar o porque da minha agitação. Se eu precisava de tempo para me organizar com calma e harmonia, que compromissos eu deveria desfazer para me dar este tempo? O fato de ainda estar envolvido com muitas atividades, por si só, mostra o quanto era difícil para mim sintetizar as minhas escolhas. Mas são nesses momentos que optamos se seguimos no caos ou criamos ordem. Partindo de dentro, aqui e agora.

Precisei de coragem para fazer uma boa reorganização em minhas prioridades. Logo a agitação deu espaço para a calma, pois o respeito a mim foi a base deste movimento.

Focar no futuro nada mais é do que pegar a nossa capacidade do presente e jogá-la para um amanhã que não sabemos quando vem e se vem. As vezes mudam os cenários e as pessoas, mas o comportamento segue o mesmo, num ciclo vicioso. No meu caso, é fácil perceber que, depois de entrar no avião, facilmente poderia ser tomado por novas agitações a partir de difíceis escolhas relacionadas à viagem. Então perceberia que a tão sonhada tranquilidade ficou para um outro futuro, que nunca chegaria assim.

O tempo pode ser um grande aliado mas não faz aquilo que nós devemos fazer.

Podemos sempre reencontrar a criança em nós para refazer aquela pergunta, com alguns ajustes:

Afinal, o que queremos ser agora?

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Sempre que estamos nos sentindo sem tempo, agitados e/ou ansiosos, muitas vezes nos irritando facilmente, podemos trazer clareza para a nossa relação com as atividades que estamos envolvidos, das mais simples às mais complexas, e observar:

- Quais são as atividades que fazemos pensando em acabar o quanto antes? Pode facilitar este processo fechar os olhos e deixar vir tudo aquilo que nos envolvemos no dia a dia, durante a semana, mas que não vemos a hora de acabar. Nestas atividades geralmente o tempo passa muito devagar.

- Quais são as atividades que você se envolve mas que, ao invés de querer que acabe, você gostaria de ter mais tempo? Vem a vontade de poder prolongar o tempo. São momentos que nos estimulam, e isso naturalmente traz os nossos sentidos e o foco para o presente. Possivelmente é com este universo que a nossa vocação está conectada.

Este exercício simples propõe apenas uma auto-observação, que auxilie no encontro com o que nos mantém no único espaço de tempo onde podemos criar e recriar nossa realidade.

Afinal, não há algo em outro tempo ou lugar que possa te oferecer mais do que tudo que existe neste exato instante.

Le Temps (foto de Arthur Belino)

Le Temps (foto de Arthur Belino)