Você tem se reconhecido?

Postado por em 14 mai, 2016 - Textos

(Texto escrito no dia 12/05/2016)

Estou em Tiruvannamalai, cidade no sul da Índia que abriga vários templos e ashrams, além de Arunachala, montanha que é considerada sagrada para o povo indiano. Como parte do caminho de encontrar o que está vindo ao meu encontro, nessa viagem de fluxo que estou fazendo há pouco mais de um ano, cheguei aqui, juntamente com a minha esposa, para passar uns dias vivendo o dia-a-dia do Sri Ramanashram, que é o ashram onde o sábio Ramana Maharshi viveu e oferecia sua presença e ensinamentos para gente de todo o mundo.

Esses ensinamentos seguem uma linha chamada Advaita, que, de forma resumida, propõe a auto-realização a partir do encontro com a nossa natureza essencial, que, diferentemente do mundo em que vivemos, não é dualista. A não-dualidade é simplesmente ter o olhar para a vida integrando tudo que aparentemente está separado como parte de um mesmo Ser, que é Um em tudo e com tudo. Foi a conexão com esse caminho que nos trouxe até aqui.

Viver o dia-a-dia de um ashram que dispõe de ensinamentos tão simples e claros, e de uma atmosfera que diminui as distrações da mente, incomoda o ego. Faz as resistências e bloqueios da vida, que tem sua essência na felicidade absoluta, saltarem aos olhos. Além da sabedoria de Sri Ramana Maharshi, e de sua energia sempre presente para aqueles que buscam beber desta fonte, são horas de meditação no chão, o que traz diversos incômodos para o corpo e pensamentos para agitar a mente. O desafio é, como sempre, estar presente. Quando isso acontece, nesses instantes de luz, os incômodos e resistências dão lugar a uma profunda paz, e então percebemos que ela nunca deixou de estar ali.

Hoje, pouco antes de começar a almoçar, enquanto eu e minha esposa conversávamos sobre tudo isso, sobre o desafio de se estar presente e dividíamos, um com o outro, nossas impressões e descobertas dos processos individuais a partir do Advaita, mordi minha língua. No mesmo instante veio um pensamento em forma de memória, projetando algo para o futuro: “que chato, acho que vou ficar com uma afta”. Além de ter que cuidar das minhas dores no corpo, ainda teria uma afta para me desafiar ainda mais os pensamentos!

Eu, que tenho certa familiaridade com as aftas, um segundo depois me lembrei que não me recordava a última vez que eu tive uma. Foi como uma ótima descoberta naquele momento (quem convive com aftas, sabe do que eu estou falando)! Já estamos há mais de 3 meses aqui na Índia e nesse tempo não fui “visitado” por qualquer afta. Uma coisa aparentemente simples e sem importância me trouxe um auto-reconhecimento importante, afinal existe um sentido para o aparecimento das aftas, uma raiz, e a sensação é que o meu principal padrão gerador delas se desfez nesse período.

A celebração desse auto-reconhecimento, e as experiências aqui em Tiruvannamalai, me fizeram dar um “mergulho” na relação entre reconhecimento e esforço.

Durante a minha experiência no ashram, me pego algumas vezes me cobrando uma meditação “melhor”, mais entrega, mais consciência, mais renúncia, etc., que acaba sendo apenas uma variação dos mesmos tipos de metas que moldam a insustentável e insaciável mente ocidental, como: “melhor cargo, melhor carro, mais salário”, entre outros. Quando o ego quer se apropriar de alguma coisa parece ser assim mesmo: sempre mais e melhor. As ações nunca são desapegadas dos resultados esperados e, com isso, estimulamos alcançar um ideal que é criado em nossas mentes, ou seja, fruto dos pensamentos que nos tiram da presença. De forma resumida, esse é o núcleo da agitação e da ansiedade que é vivida em larga escala atualmente. O ideal que criamos e perseguimos tem sua base nas memórias e, desse lugar, se projeta para o futuro em forma de expectativas. Sua referência se dá sempre fora de nós, e geralmente nos torna insatisfeitos ou cegos com o que é presente em nossas vidas. Em meio a tantas metas externas, poucas vezes nos perguntamos de forma sincera e aberta: “será que isso é mesmo para mim?”

E porque criamos esse ideal? Para sermos reconhecidos. E o que o esforço tem a ver com isso? É assim que nascem os nossos esforços não-naturais, desnecessários, com origem no ego, que sobrecarregam o nosso sistema, pois colocamos energia demais em algo que não é verdade para nós, já que estamos condicionados ao retorno externo que a nossa ação pode nos trazer. Por tudo isso, fica fácil perceber a razão de ficarmos frustrados quando o aguardado reconhecimento de fora, depois de tanta energia gasta por ele, não acontece. Depois precisamos usar ainda mais de energia para lidar com esse estado de frustração e sair dele.

Por outro lado, quando temos a habilidade do auto-reconhecimento a gente aprende a se celebrar antes de qualquer pessoa e abrimos espaço para viver uma satisfação pessoal, antes do surgimento de uma nova e ilusória necessidade de “mais e melhor”. Percebemos aquilo que está leve e em harmonia na nossa vida e reencontramos o caminho interno percorrido para se chegar até ali, o que só reforça o que já somos em essência e a nossa confiança no trajeto interior até este lugar sagrado. O auto-reconhecimento é, antes de tudo, um conhecimento sobre nós e sobre a origem de nossas escolhas, pois passamos a compreender se elas vieram de dentro, como um impulso natural incondicionado a algum resultado, ou de fora, daquilo que queremos ser para o outro antes de sermos para nós. Em consequência deste olhar, a falta auto-reconhecimento para algumas realidades que estamos vivendo pode ser um indicativo de que escolhas relativas à esta realidade não tem base no que é verdade em nós (e uma oportunidade de se rever neste sentido).

Outro ponto importante de se destacar é que, para haver auto-reconhecimento, é preciso que ele parta de uma auto-responsabilização sobre as próprias escolhas e atitudes. Eu consigo me reconhecer se eu compreendo que sou o único responsável pelas decisões que criaram e continuam criando a minha própria realidade. Caso contrário, a gente cai na culpa, na acusação e aí não é possível mesmo nos reconhecermos naquilo que somos ou fazemos, agindo sempre como vítimas das circunstancias da vida, daquilo que existe e é atraído como forma de encontrar novos olhares e, com isso, nos reinventarmos.

As ações que partem do que somos, daquilo que é realmente nosso, também passam por momentos em que surgem indispensáveis esforços de nossa parte como uma fase do caminhar, mas aqui isso torna-se natural, como uma semente que se projeta para fora da casca que a reveste, a fim de se desenvolver. A semente não tem outra opção e conosco é da mesma forma: o esforço passa a ser apenas o meio para a realização de algo verdadeiramente nosso. Por isso o sentimos como sendo parte fundamental daquele processo, e não uma criação de nossas ativas mentes em busca de reconhecimento. Quando um esforço é natural ele parte de algo inteiro, que é o nosso próprio Ser, e por isso não é sentido como esforço. No entanto, quando vem do ego, ele nasce de uma ilusória falta que precisa ser preenchida pelo que vem de fora.

Hoje, no embalo da alegria pelo meu período sem aftas, vieram outros auto-reconhecimentos importantes. Lembrei de muitos belos momentos de entrega e confiança para encarar essa viagem sem planejamento, que nasceu dentro de nós. Para citar alguns, entre tantos: desde a pausa nas atividades profissionais, passando pela escolha de não ganhar dinheiro por um bom tempo e gastar aquele que tínhamos, até as várias mudanças de destino em cima da hora, sem saber absolutamente nada do que encontraríamos, em função das circunstâncias locais ou convites da vida; a abertura em estar vivendo tão próximo e imerso em culturas e hábitos tão diferentes daqueles que eu conheço e estou acostumado; as tantas vezes que tive que soltar o controle para ir em direção ao que faz parte do meu propósito e, com isso, reencontrar novas partes de mim.

E quer meditação mais poderosa do que essa de viver a vida de acordo com o que vem do coração? E ainda por cima sem aftas!

No presente não tem nem “mais”, nem “melhor”. A gente aprende a perceber e receber a perfeição da vida por trás de cada situação. Quando estou no presente e estou conectado ao que Sou, ao meu Eu Real, fica claro que não sou eu que medito ou faço qualquer outra coisa. Apenas abro espaço para a Vida meditar e viver através de mim. Antes do nascimento do ego, já existe a Vida em todos nós. Se render a ela é o mesmo que retornar ao nosso estado natural de felicidade.

Se reconhecer não significa se acomodar nem se orgulhar além da conta. É apenas uma oportunidade de perceber e se lembrar que essa Vida que existe em nós, que deseja encontrar o seu permanente e imutável estado de felicidade, sempre atraiu situações e pessoas que nos direcionaram para aquilo que é real e pulsa dentro de cada um. Nós somos testemunhas vivas disso. As vezes vivemos processos profundos e intensos para superar esses desafios que ela nos apresenta, na sua pura intenção de ampliação do Ser, e isso por si só já nos é trabalhoso e exige difíceis decisões. Por isso é desnecessária a criação de outras necessidades, baseadas nos desejos do ego.

Acalmemos nossos egos! Eles nunca sabem bem o que querem. Que possamos treiná-los na escuta, pois quando a Vida chegar com um novo desafio, o coração chegará junto com os passos necessários, que são as escolhas do que é verdade para nós. O ego vai dizer que é impossível, que não vai dar certo, mas a opinião dele não fará muita diferença quando um novo passo for necessário. Será preciso fé, coragem, entrega e confiança para seguir em frente. No mais, tudo se auto-organiza naturalmente, como sempre aconteceu até aqui.

“Aquilo que não é natural, que é adquirido, não pode ser permanente e não é digno de ser procurado.”  Bhagavan Sri Ramana Maharshi

Íris do filme "I Origins"

Íris do filme “I Origins”

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